sexta-feira, 31 de maio de 2024

AINDA NÂO ERA O MEU TEMPO

Estava feliz
A tempestade passara
o sol raiou
a morte desolada chorou
ainda não era o meu tempo.


Jorge d'Alte

DOCE MEL QUE UM DIA VI

Cartas que escrevi
a ti coração que amo
em letras pequeninas
não te fosse afugentar
pelo turbilhão de letras
frementes de emoção
hesitantes na sua união.
Escrevinhei o que me ia na alma
desde o dia em que te vi.
Descrevi os teus olhos doces
cheios desse verde dos campos
com laivos de centeio e trigo.
Nos teus lábios fiz um hiato
o tempo de memória para os sorver
rosados e macios cheios de surpresas
Então perdi a cabeça
e rendi-me nos teus braços
nas mãos que com pequenos traços me arrepiam.
Aqui sonhei que voava
como as gaivotas que buscam comida.
Os rodopios eram tantos que tonto me dei.
Já não voava
era céu
era estrela
era galáxia que me engolia.
Sorri quando abri os olhos
olhei os rabiscos que te escrevi.
Quis enviar-te a minha carta que vivi
mas afinal onde estás tu
doce mel que um dia vi?


Jorge d'Alte
 

SEM VIVÊNCIA

Tudo calado
tudo silêncio
nem a folha que tombou
germinou no som.

Os sentidos de lado
os nervos de néscio
o olho que lacrimejou
a voz sem tom.

Era um dia como tantos
cheios disto e daquilo
Afogado sem mar
um sufoco sem vida.

Algures haviam elas e eles, quantos?
Prometendo um futuro ao quilo
queriam mais do que dar
numa vivência perdida.

O futuro era sempre passado
num mundo do corrupio
tropeçavam porque não viam
sonhavam para sentir

Quando sentiam eram como o afogado
agarravam-se com dentes á alma num vazio
sem se perguntarem porque viviam
até que o tempo anunciava, era tempo de partir.



Jorge d'Alte

quinta-feira, 30 de maio de 2024

PORQUÊ

Os sombrios raios de sol 
retalhavam meu corpo
Estava sentado nessa luz de vida.
Nem por isso se movia 
retardado na nostalgia
melancólico nas memórias
afastando as saudades
porque não as queria.
Não as queria porque não havia vazio
havia sim esperança
por detrás das pálpebras cerradas.
Não aceitava novo sonho
onde se afogava em lágrimas
que não eram dele.
Eram de alguém que vivia na luz
que deixava as sombras 
por detrás do sorriso
que mordia seu nome na boca do beijo
brincava com o desejo como garota
gargalhava a alegria como eco do seu amor
e por amor me amava 
como nunca me senti amado.
Deslizara o seu perfume 
na areia rugosa de uma praia
entrara no mar que tinha o seu nome
um mar de loucura de ondas sentimentais.
Chamara por mim numa voz quente
promitente de mil promessas.
Com o sorriso agarrado ao rosto
acenei que ainda não.
Ali fiquei sentado
enquanto os sombrios raios de sol
retalhavam o meu corpo
sem tempo mas com esperança.


Jorge d'Alte

quarta-feira, 29 de maio de 2024

O MEU ABRAÇO

Existe paz no meu abraço
como existe tempo que encolhe
e recolhe o melhor de todos nós.
Assim foi nessa tenra  primavera
quando chegaste com as flores como amigas
quando choraste só no teu canto em pranto
quando não tinhas rumo mas dor.
Escolhi-te no meio de lágrimas derramadas
com o meu sorriso como espada
Falei-te com bordados de amor os rendilhados
bebi o teu medo de estares só
num mundo intrincado e magoado.
Dei-te a luz da minha alma
beijei-te a testa e não nos lábios contorcidos
abracei-te  com deleite no acarinhar 
e insuflei-te a minha paz
nuns olhos radiosos de meio medo.


Jorge d'Alte

sexta-feira, 24 de maio de 2024

ABANDONO ABOMINAVEL

Dono porque me abandonas
porque me deixas infeliz
porque me tiras o conforto da minha almofadinha
Porque já não ris das minhas diabrices 
porque não me afagas e coças as orelhas
já não sou fofinho para ti? 
tanta coisa que perdi ai meu dono que por ti faço tudo
Já não tenho passos para onde ir
teto para me cobrir
alguém com que possa sonhar
Alguém que me chame para brincar.
Como posso comer se não sei caçar
como posso ladrar se já não tenho forças.
Hoje sinto meu corpo fraquejar
hoje sinto o meu amor escapar
Já não tenho olhos que te vejam
rosto que possa lamber por amor
só tenho um caminho doloroso para seguir
Fechar os meus olhos verdes e sonhar até morrer. 



Jorge d'Alte

Após abandono um cão morreu de saudades
Apesar de ser recolhido deixou de comer
aninhado num canto morreu só.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

APRENDI A SONHAR

Quando foi que aprendi a sonhar?
Talvez quando a infância passou a voar
o corpo mudou e a voz enrouqueceu
e podia fazer o que me apeteceu.
Minha mente mudava entre o que era e o que ia ser
tudo era novo num corpo a crescer.
Havia raparigas que eram giras 
que lançavam laços de sorrires e iras.
Foi então que o amor chegou
não tinha asas mas tinha lábios que entregou
e neles voava tal como sonhava
em camas de areia no mar que vagava
olhando luares nuns olhos profundos
raiando promessas de outros segundos.
Desde então sonho contigo
nesses  lábios sabor de trigo
abraço esse corpo de peles tão sedosas
onde me nino no teu afago cheiro de rosas.



Jorge d'Alte

A FLOR SOZINHA

A flor sozinha
a flor tão bela 
que vive algures
agarrada á pedra
sonha nos sois
olhando esses mares
adormece nas noites
olhando os luares.

Contando estrelas 
como rosário de perolas
anseia na madrugada
pelo canto do galo
e já desperta  o dia abraça 
seus amantes deseja
que venham em graça
que lhe beijem as pétalas
que lhe suguem a doçura
e como travessura ela ama
e com candura ela agradece.

A flor sozinha
adorna no vento
agarrada á pedra
murcha no tempo.


Jorge d'Alte


quarta-feira, 22 de maio de 2024

A MINHA DOR

Eram vagas as vagas do meu mar
espumavam contra as adversidades
escolhos de tristezas que doem a valer
O coração sempre guarda
o que a memória não quer esquecer
e cá dentro na alma parda
sinto-me fenecer por não amar
embora houvessem raios de felicidades.

Tento agarrar as águas do meu mar
elas se esfumam batidas com o tempo degastado
Quando comecei a sonhar?
Quando acordei vergastado?
Eram pesadelos de ser rejeitado ou eram coros?
Coros de sentimentos sem raízes para a vida
prazeres que me abriam os poros
me faziam tremer na hora prometida.
Era amor esta dor?
Era a paixão frigida?
Tantas perguntas que esmoreciam sem cor
no meu mar vago sem partida.

Um dia amei
amei uma flor
um dia beijei
e é essa a minha dor.


Jorge d'Alte




terça-feira, 21 de maio de 2024

TRETAS

Onde estás sol?
Encontrei-o a marinar no horizonte
estava na ronha
em vez de alegrar os corações.
O patife estava prestes a fugir para o de lá
cobrindo-nos com um manto negro
deixando-nos o som monótono da solidão
num mar nervoso de sensações.
Eu sei que ele volta
como sei que ela volta
pois não é corpo nem alma
é apenas desejo
fragmentos soltos de um sorriso que vi
no crepúsculo que inventei.
Não era sonho era apenas nuvem franzina
era feita de lágrimas minhas
saudades de outras elas
que como o sol se marimbavam para ele
deixando-o num nimbo de mal amado.
Pronto tudo se acabou quando do sol nada restou
levando-me para a cama macia
pois sonhar era tudo o que me restava.



Jorge d'Alte

segunda-feira, 20 de maio de 2024

FLAUSINA

Ela era a flausina
gastava o espelho
com deboches de pinturas
cremes, rimeis e depilações.
Ela era o que era porque era bela
todos corriam por ela entre nãos e meio nãos
mas no intimo ela amava a apoteose.
Dançava alheia
no meio do fumo
copo na mão
coração seco 
sem emoção.
A noite correra lesta
sem beijos nem abraços
nem amigos
nem palavras de desperdício.
Houvera um momento
só um momento mágico.
Uns olhos olhavam-na irónicos
um corpo lindo engalgado
um sorriso bah! amordaçado
sem palavras ou gestos.
Sentira algo tão estranho
dentro dela algo despertara
seria o tal amor, a paixão que tudo traga?
Não o soube
fora um momento.
Depois veio o frio de novo
enregelou-a como vento caminhando
a tristeza e a mágoa doíam-lhe.
Depois ardeu num fogo sem se ver
uma voz encantou-a
o sorriso comeu-a
o beijo tropeçou no desejo
as mãos se deram.
A noite era brava com nuvens de descarga
soube que havia ali uma estrela e não era ela.
Amou-o entre lençóis brancos da cor da sua pele
beijou-o como o eco
seria um sonho?
Porque o agarrava?


Jorge d'Alte



sábado, 18 de maio de 2024

A VIDA DE CEM ANOS

Corcovada lá ia
calçada acima no suor
levando á cabeça nua
um molho de carqueja seca.
A sacola nos ombros pendia
legumes lá iam juntos com a dor 
nas mãos calejadas o cajado e uma perua
mais acima no alto do morro careca
havia a sua casa a sua catedral.
Ali estava junto a Deus
e nas estrelas de memórias estavam saudades
amores que se quebravam no tempo e no bafio
Ansiava por chegar ao seu cantinho de branco cal
ali estavam as fotos dos netinhos seus
havia recordações esvaziadas nas idades
havia nas velas a Senhora e o seu templo, o lio
fugaz imagem que lhe molhou os olhos de sal.
Os filhos idos
Partiram um a um
As terras estranhas
e o vazio.
Hoje jantaria com o seu homem no olhar
Jazia na cama entre os linhos
Amanhã viriam os ateus um a um
E com mãos fortes arrancá-lo-iam como entranhas
deixando-a sofredora esvaida cem anos depois como um rio.


Jorge d'Alte

quinta-feira, 16 de maio de 2024

A FLOR DA TARDE

Quando chegar o outono
e as folhas mudarem de cor
quando o calor se calar e o sol murchar
abrirei de novos os olhos
colarei no meu olhar as novas cores
fundirei no coração o amor
e vou sorrir para cativar.
Eu sou o que sempre fui a flor da tarde
a flor alegre
a amada
a cobiçada
a mais linda.
Sei que virão aqueles que me fecundam
que me beijam com mel
que contam novas histórias
deixando-as nas brisas como notas
que as cantam num bater de asas
e quando as geadas caírem
entre as noites e os luares
é o momento de partir 
deixar as sementes navegarem
e dormir e sonhar
pois depois das tempestades
carregadas de gelos e água
e o calor mingar
eu vou voltar
poderosa e bela
quando o outono chegar.


jorge d'Alte

quarta-feira, 15 de maio de 2024

VOEI JUNTO AO MEU SOL


Queimei minhas asas brancas
quando voei junto ao meu sol
esse sorriso irresistível
essa boca de promessas
essa pele madura tisnada e bela.
Gosto dessas tranças, dessas ancas
onde sempre escorrego como troll
fico olhando abismado esse corpo apetecível
esses olhos de lírios quando regressas
essas palavras que o amor sela.

Voo agora num céu novo porque lá estou
dizem que sou estrela que sou poeira
que me sento nas nuvens numa tristeza
as minhas lágrimas são chuva
que acariciam teus ombros nus.
Ficas-te junto á laje branca na lágrima que chorou
que me chamaste em vão num rumo sem eira
que agarrastes o vento com subtileza
que de memórias engrossaste como uva
bago de amor como Vénus.

O que não sabes é que tenho memórias
uma vagas outras tão reais que te beijo
Sorris na janela aberta onde a luz te delineia
sinto o teu perfume volúpio
sinto a saudade que te mortifica.
Memórias
Beijo
Candeia
ópio
tudo o que amar significa.



Jorge d'Alte

sábado, 11 de maio de 2024

O PÓ DAS ESTRELAS


Está no nosso corpo o pó das estrelas
como está a água que nos deu a vida.
Nos milhões de anos passados como caravelas
numa madrugada linda como lama perdida
abri os olhos e berrei no meu choro.
Deus não quis saber se eu queria nascer
deu-me um caminho que percorro.
Sonhos tenho muitos a crescer
saltei horizontes para os encontrar
procurei teus olhos desamparado
até que um dia o amor me veio falar.
Cobicei esses lábios cheios de mel, descarado
pousei neles como abelha tonta
percorri teu corpo de pele como corcel
vi-te o intimo como quem faz de conta
te chamei minha, meu amor, meu moscatel.

Que mais poderia ter ambicionado
senão um amor que enche o céu
que conta as estrelas neste coração molhado
que escreve esses nomes na noite de breu
pois quando o vento voltar
trouxer o cheiro das flores nesse ar
eu talvez seja já pó estelar
morto de vida água a secar.


Jorge d'Alte


quarta-feira, 8 de maio de 2024

SE

Se fosses minha
se o coração me desses
se sorrisses com a alma
se com beijos me cobrisses
eu seria  a tua cama
onde enrolada eu te tinha
se as mãos me desses
dançaríamos sem vivalma
á luz de estrelas com meiguices
com o luar onde se ama.

Se fosses ave voaria contigo
nas correntes  até ao infinito.
Se fosses flor uma espiga de trigo
eu seria beija flor o nosso grito
Se  fosses água eu te bebia
encheria o meu coração com as emoções
seria lágrima que  dos teus olhos corria
Seriamos partilha ardentes tições.

Mas somos apenas duas almas
que sonham na esperança
que sofrem nas noites calmas
quando os olhos se deitam como criança.


Jorge d'Alte
 

sábado, 4 de maio de 2024

O SEU HOMEM

Chovia chuva por todo o lado
cortina que brilhava nos relâmpagos
na janela acesa a tua cara
olhava o horizonte petrificada
seu amor estava lá na montanha
o rebanho e o cão a seu lado.
Irrequieta, melindrada em bicos de pés
esperava entoando memórias que criara.
Plantara-as num crepúsculo sem estrelas
lá por detrás das nuvens prenhes
cheias da aflição que lhe roía  a alma
na escuridão que grassava 
com sombras sombrias tenebrosas.
A espera contraia-lhe as faces numa meia alegria
Longe dela mas no seu olhar
uma luz de candeia tremeluzia.
Empinou o seu peito numa heresia
sentiu o prazer voando no seu sangue
soltou no vento agressivo um nome perdido
sua boca beijou de desejo
a imagem dele nu a seu lado
os corpos iriam se agarrar
aquecer o gelo para amar
junto á lareira com carvão ardido
e o cão a olhar.


Jorge d'Alte

sexta-feira, 3 de maio de 2024

A COR DOS TEUS LÁBIOS




Eram papoilas num campo atravessado.
Era um mar vermelho como a cor dos teus lábios
que me seduziam como ópio fumado
A mente enrolava-se como línguas brincando
sentindo sentires num corpo trespassado.
Palavras havia no corpo emaranhado
não haviam lágrimas
mas havia brilho no olhar
não havia sons
havia mãos que afagavam
seios e coxas
peles que se arrepiavam
havia tudo isto num mar vermelho da cor dos teus lábios.


Jorge d'Alte

quarta-feira, 1 de maio de 2024

CARTA AO MEU PAI

Hoje gostaria de te abraçar
não com as lágrimas
mas com um sorriso.
Tão cedo nos deixas-te com a dor
tão cedo te tornas-te saudade.
Criamos memórias e laços
que bordei no pensamento
que  amei no coração
tantos dias claros que vivemos
onde alegrias se sobrepunham
onde as tristezas ficavam lá atrás
e onde o carinho era teu nome Pai.
Hoje mordo o tempo com raiva
o nevoeiro do tempo não te encontra
não me deixa chorar mais uma vez
muito menos sorrir e abraçar.
A saudade que sinto é um risco de luz
que me pica no coração
e por uns momentos insanos
sinto tua voz
vejo o teu rosto
dou-te a minha mão
consigo te abraçar
não com lágrimas
com o meu sorriso.


Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...