sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

OS IRMÃOS


 

Eramos irmãos na história
rebeldes e destemidos
mal pensávamos nós
que a vida só seria minha
que o outro seria saudade
que a minha alma seria mirrada
sem a alegria de outrora.


Jorge d'Alte

COMO SONHAR


 


Como sonhar se o sonho caia na margem
Do outro lado, na neblina estava o futuro
estilhaçado nos olhos que nada viam.



Jorge d'Alte

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

LEMBRANÇA


A tempestade caia calada
lembrando-me sons da minha aldeia.
Os telhados pingando como lágrimas
embaciavam o vidro da janela
alheando-me da vida que lá fora se abria.


Jorge d'Alte

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

DESPEDAÇO



 



No dia em que o céu comeu o horizonte
caindo sobre a praia e me afugentou
dos grãos de areia, despedaço da minha tristeza
que se escapava pelos dedos da minha mão.


Jorge d'Alte

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O SOLITÁRIO





O solitário
vivia na sua casa de mil anos
não falava com ninguém mas não era mudo
era forte e teimoso no uso do seu cachimbo
nunca ninguém o vira chorar, blasfemar ou cantar.
Via-o sempre durante a minha infância
erguido na varanda rodeado de plantas
olhando o profundo do horizonte sem magia.
Recolhido no seu quarto revia a sua vida,
sim tivera-a um dia mas deixara-a algures 
caída num tempo que já era.
Desde aí não sonhava
os sonhos eram sombras que por ele passavam
umas vezes trazendo lágrimas
outras um sorriso quando o sonho era luz e ele a via
correndo dele toda atrevida na sua saia rodada de chita.
De novo as sombras dançavam á sua volta
regurgitando momentos, emoções, saudades.
O solitário 
desfazia-se então numa raiva oculta na sua garganta
trazendo-o á varanda;
gritava o que ninguém ouvia exalando uma fumarola
Fora assim no meio das névoas passadas que ele morrera sem saber.


Jorge d'Alte





 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

MARIA



Foi o raio que me fez parar
entorpecido na planície
tinha perdido tudo naquele trilho.
Então recordei a memória adormecida
tinha-a guardado no sonho numa nuvem
de tão molhada encolhera como o som antes do silêncio 
Chamei-a na meia brisa 
fora um sorriso que me empolgara mesmo envelhecida.
Era uma amizade esquecida num qualquer lugar deste trilho
tinha um nome semeado na minha alma sofrida;
Maria!



Jorge d'Alte



 

domingo, 25 de janeiro de 2026

OS SOLOS DE UMA CANÇÃO DE AMOR


 
Juntos lá iam no arrulho
indiferentes ao ruído da multidão
e á chuva molha tolos.
Levavam nos corações o sarrabulho
na conversa um milhão
desejos melosos e beijos como solos.


Jorge d'Alte











sábado, 24 de janeiro de 2026

AS MANAS


As manas lá iam satisfeitas
No olhar levavam a velhacaria
Ansiosas pela coscuvilhice
que as alimentava à mesa das amigas.


Jorge d'Alte











quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

OLHOS QUE CHORAM

 

  


Porque choram os olhos
salgados de  salobras lágrimas
cataratas de saudades da ausência
farrapos de coração dilacerado.
Porque choram os lábios
invejados na disputa de larápios
paixões que crestam a alma que se vai
vai vazia desse amor desdenhado
vai rouca de voz que intimamente grita.
Porquê?
Porque abandonaste?
As lágrimas caem no chão de esgares
e correm sem tino nem destino:
apenas correm!


Jorge d'Alte

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

PARA ONDE FUI NÃO SEI

 




Quando nasci
havia pai e mãe.
Quando casei 
havia ela.
Quando morri
houve dor e saudade
para onde fui
não sei.

Jorge d'Alte

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

LÁGRIMAS

 



Chove lá fora
bocados dos céus
dizem que são saudades e as lágrimas
de quem amou e morreu.


Jorge d'Alte

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

SOSSEGADO

 



Sossegado
fechei os olhos
no meio de ariscos arbustos 
ao pé das pedras do rio.
Quisera chonar afagado
no calor dos raios do sol, aos molhos
mas os sonhos vinham com muitos custos
tinham canseiras, sombras, morros e frio.
Queria sonhar com livros e poesias
meus dedos queriam as palavras
por isso andava atrás das rimas
mas os olhos escreviam histórias belas.
Amor era a cor das maresias
asas me voavam no coração em lavras
dançavam em emoções e cismas
mas os sonhos eram canções singelas.
Peguei na melodia que esbatia no silencio
peguei nas tintas que enchiam o céu da primavera
pintei corpos que tracei no carvão suas linhas
junto aos mares, aos lagos e rios.
Sossegado
viajava no tempo como labaredas no meu incêndio
baralhado nos baralhos da vida que era
talvez passos num trilho movido nas falinhas
os horizontes abertos eram monstruosos desafios.


Jorge d'Alte






domingo, 11 de janeiro de 2026

TRÊS PASSOS

 



Três passos ficaram ali na iminência
o abismo abriu-se
o coração frustrou-se
afinal o sorriso não era para ele
Outro se adiantou e colheu-o.


Jorge d'Alte

sábado, 10 de janeiro de 2026

ESSES OLHOS NEGROS

 




Olá minha velha amiga
olá sombra onde vivo
vim falar vazio de novo contigo
porque uma memória se aproxima
doce, alegre, suavemente.
Em sonhos agitados eu andei sozinho
por calçadas de pedra em ruas estreitas
que amordaçam os corpos como luz na lâmpada.
No frio húmido como folha voando sem destino
estavas tu
tu que me encantaste com os teus olhos.
Ai eu amei teus olhos negros
amei esses olhos ternos
profundos poços de mistérios
rotas, traços que me levaram ao inferno
de te ver e não te ter.
Loucos disseram que eu não sabia
como amar esses olhos negros
como deixar a minha sombra
onde os amargos traziam a tristeza a solidão
esse limbo onde escondo as saudades as emoções.
Mas eu amei esses olhos negros
eu amei teus olhos negros
num sonho que é só meu
dei os meus braços em abraços
para que te pudesse agarrar; desfrutar.
Bailamos na neblina dos sonhos
entre o fechar de olhos e o acordar
beijamos as nossas almas
e as pessoas curvaram-se
afinal eu sabia amar
amar esses teus olhos negros 
e as palavras foram ditas
as lágrimas choraram e partiram-se
coalhando no sabor do beijo
sussurrando nos sons do silêncio
até que inexoravelmente o tempo se gastou
e os teus olhos negros se derreteram, no acordar.


Jorge d'Alte







terça-feira, 6 de janeiro de 2026

PALMILHANDO



Palmilhando ruas de paralelepípedo
fumando e sacudindo os morrões
via a vida a fluir, ardente, resmungando
os meus botões estavam silenciosos.
O amargo de boca sobreveio num enredo
então a alma murchou emocionada nas desilusões
havia tristezas e mágoas havia novos dias chegando
eram saudades no passado, eram vazios nos futuros preciosos.


Jorge d'Alte








domingo, 4 de janeiro de 2026

AMO-TE TANTO

 




A escuridão deixou as suas sementes
cravadas no meu cérebro
acolhida no silêncio de um sonho.
Eram sonhos irrequietos num mundo sozinho
e os passos mudos não falavam de mim
levavam-me de gola virada para um frio tecido na geada.
Quando os meus olhos descegaram num flash
um raio rachou a escuridão, e a luz,
a luz que eu perseguia escorada  nos sons do silêncio
se abriu na alma, esconsos pedaços de ser feliz.
Pessoas passavam, ouviam as minhas falas, sem escutar
havia corações partilhando as emoções
havia pessoas a acenar
vozes que não ousam perturbar
o silêncio
Loucos que não sabem amar
ombros esquecidos no egoísmo
tantas palavras tinha que poderia ensinar
murmúrios para chegar a você
me abrace
as lágrimas são pingos calados
poços de silêncio inquebráveis
doçuras beijadas em bocas famintas de lábios dados 
e os sonhos voltaram nas palavras que se estavam formando
Amo-te
Amo-te tanto!


Jorge  d'Alte

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

RECORTADA


A alma resignara-se amarfanhada
nas penumbras do crepúsculo.
Recortada na quadratura da janela
a silhueta debatia-se sem vivo rosto.
Fora um pesadelo essa madrugada
fora a mágoa que a ferira como um furúnculo.
os linhos revolteados tinham ainda o cheiro dela
uma sereia que o encantara no sol posto.


Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...