quinta-feira, 29 de maio de 2025

A PARTIDA










Mãe! Onde vais tu?
Onde vais tu mãezinha?
Deixaste-me neste chão sujo
agora só consigo agarrar o eco dos teus passos
não te posso seguir pois não tenho pés
vou ficar aqui neste chão gelado
vou fechar os meus olhos adormecer
sentir a maminha a acontecer
chupar o leite morno no calor do teu odor
na doçura do teu colo nas canções que me embalavam.
Já não te vejo e a luz não existe no meu olhar
não ouves as minhas lágrimas a tilintar o meu medo?
Onde está o teu amor esse tal que sempre me aqueceu
vejo o escuro e os monstros das sombras
já não vejo as estrelas nem a lua muito menos o mar e as ondas.
Mãe acho que vi o meu anjo!
é lindo!
é loiro como tu
quer dar-me a sua mão.
Posso?
Um dia falaste-me de sonhos, será isto um sonho?
O pai partiu!
não o vi mas sei.
O anjo diz-me que está no céu...
Já ganhei as asas e subi!
Mãe onde estás tu!
Mãezinha porque me abandonaste?
por não ser como as outras, não poder andar?
Por chorar desde pequenina, por não ter o meu pai?
Sei que sempre me amaste e agora?
Sabias que sei contar os beijos que me davas, os abraços?
Sei que tínhamos sempre fome
ouvia-te chorar baixinho
sentia a tua mão quente afagar-me a aflição a falar.
Mãe aconteceu algo!
Sou agora luz junto ao pai.
Já não tenho medo nem esse mundo que nunca compreendi.
Mãe estão a falar-me de perdoar
Mãezinha, eu perdoo-te!
Amo-te como sempre amei
Quero que sorrias e fales comigo pois estarei sempre ao pé de ti.


Jorge d'Alte

segunda-feira, 26 de maio de 2025

SONHO DE AMOR


Ele era assim escanifrado
plantado como árvore no meio dos trigais
Suas raízes longevas prendiam-no
á sua terra, ao casario escorrido, á lua branca.
Houvera um tempo de lindos sonhos á lua matutina
canções como passarinhos mordendo-lhe os ouvidos
murmurando caminhos, velhas runas de sorte
houvera escolas e adolescência.
As suas folhas eram sentimentos ramificados por ali
foi ao  olhar para cima que viu a lua vespertina
trazendo-lhe no passar da brisa o cheiro do amor.
Ela era feita de tecidos brancos, cambraias transparentes
correntes de vento que o atavam como molhos de tojos
ceifados para não ferirem os corpos; o meu e o dela.
Foi assim que numa noite já ida nos amamos
os olhos sorriram esbatendo o luar
os lábios se abriram para beijar
a boca foi campo de batalha a digladiar
foi eco de diálogos dos corações.
Depois foi corpo ardendo numa lava louca
até que a madrugada trazendo a neblina e a geada
nos acoitou dento do nosso sonho de amor.


Jorge d'Alte 

terça-feira, 20 de maio de 2025

O PADEIRO


Ainda a madrugada não tinha degelado
e os olhos lavavam as remelas
já na calçada ecoavam os passos do padeiro
carregando aos ombros a cesta dos pães.
Um a um ficavam dependurados nas sacas do pão
até que mãos apressadas os recolhiam tostados 
barrados depois em manteigas batidas de natas do leite do dia.
Saudades aguçam-me o palato
corro á despensa o pão está lá, mas falta-lhe o cheiro
aquele cheiro a pão acabado de fazer.
Triste fico a olhá-lo afastando-me.

Jorge d'Alte

quinta-feira, 15 de maio de 2025

PARA LÁ DO PONTÃO


Sentado na ponta
enxergo as profundezas
miro o horizonte para lá dos céus.
Procuro os meus passos como borboleta tonta
que me levem dali nas subtilezas
no abismo vejo labaredas ténues como véus.
De olhos fechados vejo a minha alma
comungo com Deus essa paz calma
vejo nos meus olhos um marejar
sou como nau vacilante a navegar
enfrento o destino com coragem
sopro nas velas uma pequena aragem
e parto dali enfrentando os meus receios
subo o cordame até á gáveas esses seios
onde posso ser de novo alma e sentimentos
e ali vejo e antevejo novos momentos.
Sentado na ponta vejo a minha Fé o coração
ergo-me lesto o caminho abre-se risonho para lá do pontão.



Jorge d'Alte 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

VOCÊ

 

Você me leva
até estar sobre as montanhas
deixar os tumultuosos mares lá para trás
quando estou triste de verdade.
Quantos problemas voam até mim
até o silêncio me tomar
a solidão me sofrer
a angústia me casar
até ter um ombro onde chorar?                             
                                                 

Por isso te sentas ao pé de mim
num tempo que se torna só nosso
num olhar vivo de amizade
até o coração serenar
num vale de rio calmo
onde o trigo murmurante me chama
onde os sonhos me agarram
até eu te ver não como miragem
não só como amiga
tampouco como companheira
mas sim como o amor de uma vida.


Jorge d'Alte
                                                                          








terça-feira, 6 de maio de 2025

OLHA OS MEUS OLHOS

 




Olha os meus olhos
procura no teu coração
encontra-me na tua alma
sentirás
saberás
que me encontraste lá.
Não me digas que não valeu a pena tentar
que não vale a pena morrer por isto
amor que se dá e partilha
que beija no beijo em lábios ávidos
que se ramifica nos abraços nos sentimentos
e nos deixa no cume deslumbrados.

                                                                                      

Jorge d'Alte

domingo, 4 de maio de 2025

ESPERANDO


Sou o cão dele
todos os dias o espero no anoitecer.
Amo-o sem perceber
mas que interessa isso
no meio das festas e da sua voz.
Quando me chama sinto uma alegria tal
fico louco em amor
por isso chamo-o com um latido
com os saltos e rosnadelas chamo-o de amigo
e juntos vivemos por ele e por mim.


Jorge d'Alte

sexta-feira, 2 de maio de 2025

A TORMENTA


 A rua caíra escura
a tormenta rugia na sua alma
a luz era difusa
os passos batiam chapinando
na sua boca a amargura
no seu coração a desalma
a sua mente confusa
rasgava o corpo rapinando
o desejo, a paixão o amor
deixando apenas incrustado a dor.


Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...