quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A PASSAGEM

 



Os rostos mostravam-se no último segundo.
Todos tinham uma voz diferente na miscelânea
crispados, ansiosos, irónicos, emocionados.
No copo de champanhe sorviam os desejos
um ano novo mas o destino exultava
nada seria como antes e ele viveria das vísceras
da dor, da podridão, dos desastres, indiferente
aos pedidos nos choques dos copos e dos sorrisos.


Jorge d'Alte

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

ÚLTIMO ADEUS



 


Um dia quando o tempo se romper
um de nós partirá o outro fará um último adeus.
Aprenderá a viver num silêncio amado
em que outra voz nunca poderá preencher.
A saudade ficará para sempre nos olhos teus
viverá em memórias eternamente até que o teu tempo se tiver acabado.


Jorge d'Alte

domingo, 28 de dezembro de 2025

HOJE E A NOSTALGIA

 


Hoje fiquei possuído pela nostalgia!
Na solidão meio escondido pela névoa
havia um banco deslavado com pés de musgo
havia frio no ar e as arvores estavam nevadas, inclinadas.
As pequenas hastes de vento soprado onde as aves não pousam
cortavam-me as faces como se tivessem picos
zuniam nos ouvidos cantarolando músicas sem melodia
a voz morna de um pássaro algures piou lúgubre.
Fora ali que muitas vezes me encontrara com os pensamentos
que soubera sonhar o mais lindo dos sonhos de adolescente
a cabeça a andar à roda 
beijar uns lábios 
uns lábios húmidos de carinhos
sentir a fragância a encantar
oh meu Deus que foi isto!
as borboletas a adejar na barriga eram intrusas
sentir-me a amar 
vertendo as emoções
como cataratas
num mar
esse mar louco cujas ondas vão e vêm
tragando-se na pele areada em arrepio
espargindo-se num jorro de murmúrios de amar.


Jorge d'Alte









sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

POR SER NATAL

 


Hoje,
Hoje enviei um beijo aos céus
lá onde as pessoas são anjos
lá onde a saudade abunda
onde estão os meus
que se acolhem no amor da minha alma.


Jorge d'Alte

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

ERA NATAL

 



Era natal
os amigos andavam estranhos
parecia que viviam escondidos em segredos
cochichavam por aqui e por ali. 
Na véspera do Natal
reuniram-se debaixo de um choupal
tinham vindo de mãos cheias
e depositado num silêncio enchendo a saca.
Nessa noite frigida de dezembro
ouviam-se pelas terras canções de Natal
havia de certeza uma áurea de alegria.
Pelos trilhos que pareciam subir ao céu
os garotos ia em fila cantando
enchendo essa noite diferente de amor.
O mais velho seguia na frente com o saco cheio
até baterem na porta do barraco.
Após uma roncada chiadeira esta abrira-se.
A surpresa encheu corações unos na pobreza
trazendo um breve sorriso ao avô.
Depois vieram mais pessoas e as crianças
atrapalhando-se umas ás outras.
No meio Álvaro chorava defronte dos seus amigos
o natal estava ali e nessa noite de tantas estrelas
a sua mesa estava cheia
o calor dos amigos enchiam-lhe a alma
e esta embora chorando essas perolas
sorria num agradecimento pela dádiva.
Mais tarde descendo os trilhos
os amigos também se comoviam orgulhosos
pelo passo gigante que as suas almas tinham conseguido.


Jorge d'Alte



sábado, 20 de dezembro de 2025

LEÃO O REI


Um dia nasci livre
no meio da selva e das savanas
percorri o meu mundo por comida
fui escudeiro do rei
até que a encontrei.
Estava deitada escondida, mas graciosa
Rondei-a nas noites e nos dias
rugi as minhas canções com desejo
e foi sob a lua que escutei
a mais linda canção de amor no cio.
Esfregamo-nos no deleite 
beijamo-nos no lambe-lambe
depois lado a lado partimos
corremos o espaço nas caçadas
deixamos os ventos para trás.
Um dia quando a manhã soalheira nos aquecia
um miado me enlouqueceu
era a primeira cria e então sonhei
esta balada de amor até a noite cair.
Juntos íamos com as sombras
a terra era o nosso reino
e nessa altura tornei-me rei.


Jorge d'Alte

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

SABES QUE GOSTO DE TI

 




Sabes que gosto de ti
que te amo que te adoro
não sei porque morri
neste amor doido sem fim
e sempre que olho para ti
vejo tudo o que perdi naquele tempo
tempo que se arrastou
que te trouxe a um ilhéu que sou eu e tu.
Sempre nos amamos num amor confuso
mas sou sempre teu mesmo quando o beijo se perdeu.
Quero-te sempre ao meu lado
não quero ser como pedra que se chuta com o sapato
Amo-te como no primeiro dia!
Quando damos a mão as tristezas ficam no caminho
as mágoas se evaporam como geadas na matina
Vivo contigo este sonho antigo
que soçobrará quando o tempo quebrar
e um de nós partir.

                                                                               

Jorge d'Alte

ELA ERA UMA ROSA

 





Era uma rosa
rosa
espinhos bordavam-na
picando
Queria abraçá-la
doeu
quis beijá-la
feriu.
Caiu chuva
lágrimas
sobreveio a brisa
suspiro
veio o sol branco
se abriu
no por do sol
brilhou
na crosta da pedra
se agarrou.
Agora estava pronta para mim
a noite espreitou
riram-se as estrelas
a lua cavou
foi-se com as nuvens
tudo foi cego
no aconchego
tudo foi infinito
quando a beijei.


Jorge d'Alte

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

A HORA DO TEMPO

 




Muito tempo se passara
e eu a contar as horas
as memórias despencavam
até ao momento mágico.
Ela bela e perfumada amara
mutilara meu coração em toras
divertira-se e amara em cada um deles
depois sobreveio um adeus trágico.


Jorge d'Alte

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

DO OUTRO LADO DO MUNDO

 






Do outro lado do mundo
um barco rasgava as águas
levava uma alma no seu fundo
corria atras das magoas 
era a saudade que a agarrava
lhe insuflava a fé que a arrastava.
O encontro deu-se na margem verde
o abraço apertado
um amor selado.

Do outro lado do mundo
ele e ela cruzando a savana
levavam uma criança num leito de cana
e um amor profundo.


Jorge d'Alte

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

DESEJOS

 


Levava na alma a sombra de desejos
tantos queria
eram beijos
eram olhos em que ninguém se fia
eram mãos
que mastigavam a pele
era a sofreguidão
era tudo isto quando pensava nele.



Jorge d'Alte

domingo, 14 de dezembro de 2025

ADEUS

 



Sinto-me perdido em mim
estou cego sem vislumbres da alma.
Amargo está o coração
chove mágoa por aqui e ali
estertores de sentimentos vadios
fogem da minha vontade
fogem dos meus olhos
mordem a minha fala num murmúrio enfezado 
desde que os teus passos me deixaram só.


Jorge d'Alte

sábado, 13 de dezembro de 2025

PORQUE ME SINTO ASSIM

 




Porque me sinto assim
como se o mundo se tivesse revoltado
enviando a chuva tanta
os ventos que tudo arrasa
os mares encrespados até á loucura
os rios torcendo-se nas correntes das pedras
até a lua vira a sua cara mostrando as suas faces severas.
Do Sol não tinha nada a dizer
mas explodiu aqui e acolá lançando sua fúria energética.
Tudo conspirou contra a humanidade
mesmo assim o homem continua seu rumo cego até á extinção.

                                                                                   

Jorge d'Alte

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

ALGUÉM


Tens saudades também
quando o silêncio brusco começa a queimar?
As palavras morrendo no medo da solidão
de guarda-chuva ao sol está alguém
será sonho, visão desfazendo-se no olhar?
a memória de um alguém xaveca-me o coração.


Jorge d'Alte

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O BARCO QUE NUNCA PARTIRA


Estava ali descansado em poisio
não pelo trabalho mas pelo sedentarismo.
Fora concebido pelas mãos de Mestre ousio
descambara de um sonho de cinismo.
Nunca sentira, o rio, o mar
nunca vencera a tempestade
nunca fora luz no breu do ar
apenas se quedara ali prostrado qual majestade.


Jorge d'Alte

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

RAIOS E CORISCOS


Raios e Coriscos caíam
estalavam como foguetes
amarravam os ventos na tempestade
como o sorriso dela me amarrava
na tempestade da alma.


Jorge d'Alte

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A CARTA DE NATAL

 




No cimo do morro
olhando o redondo á minha volta
quebrei na lonjura das memórias
e recordei.
Estava na roda das cartas ao Pai Natal
era o mais novinho e seria o primeiro
a fila crescia atrás de mim numa imensidão.
Tinha escrito meia dúzia de sarrabiscos
com cuspe colara a carta pintada de várias cores.
Lembro-me perfeitamente o que queria dizer
de sentir a minha alma alvoraçada na matina;
no cimo da cadeira encostada no marco vermelho
meti a mãozinha na ranhura largando a carta amarrotada.
Nela ia o meu pedido gatafunhado.
Jesus ajudai o pai e faz a mãe sorrir
Dai-nos um pão em cada dia
dai-nos o sol para aquecermos
ajudai os meus amigos.
Aqui os olhos descaíram
com o esgar de uma lágrima
o Tonecas morrera num dia: tivera garrotilho.
Nessa altura até ficara feliz
estava com os anjinhos no céu
corria com o vento escorregava no arco Iris
só não percebera como podia dormir na nuvem sem cair.
Caí em mim na penumbra do dia
Cantei um Natal distraído
chutei uma pedra no caminho
as folhas caíam leves como a neve caía bela em pétalas.


Jorge d'Alte


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

DESTINO


 

Quando nasci
quando os olhos se abriram
quando o cérebro pensou
disseram-me; este é o caminho do teu destino
Dei o meu primeiro passo e segui-o.


Jorge d'Alte

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

PARTIDA

 



Foi num dia assim
que não te deixei partir
mesmo trambolhando cá dentro
te guardei no meu amor.
Lágrimas eram choro de saudade
que escorriam nas veias até á dor
Amei-te uma vida
agarrei-me ao teu sorriso
afaguei-te os cabelos já esbranquiçados
beijei o desenho da tua boca
pintei-a com o meu mel
e não te deixei ser estrela no céu
porque foste e serás sempre minha.



Jorge d'Alte

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A CARTA

 



Senti a carta entrar-me pelo peito dentro
senti os lábios da alma a lê-la murmurando
Senti os olhos crescerem em boas novas
senti as lágrimas apoderando-se dos cantos dos olhos
nos meandros das saudades escritas nas memórias.
Senti isto tudo
um mundo de carinho
um redemoinho de emoção
os dedos tremelicando
escreviam no retorno.
Selei-a com um coração desenhado
em volta da lágrima caída.

                                                                               

Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...