sábado, 28 de dezembro de 2024

ESCONDI-ME


Escondi-me o ano todo
não queria que a idade envelhecesse.
Fugi dos sóis esbracejei nas noites
dei passos que eram passinhos
mas tudo saiu furado.
O novo ano vem aí
trás tudo atrás de si
mais uma ruga e a palavra avô.
O amor também vem e quem netos tem
não pensa na morte da bezerra
pensa em tudo aquilo que ainda tem para lhes dar.



Jorge d'Alte

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

ACREDITAR


Fui a uma loja de sonhos
deram-me em novelos
no desfiar havia só pesadelos
de saudade de olhos tristonhos.
Procurei onde estava a felicidade
vasculhei, veias, memórias, sorrisos
em sentires misos.
Não a encontrei por ali na minha voracidade.
Caí
como o tronco cai
retumbante sem retorno
fiz desse desterro o meu trono.
Era soturno e sombrio esse lugar 
a luz fugia antes de a agarrar.
Lembrei-me da lua
essa personagem sempre nua
diziam que era dos amantes
lembrei-me que já amara há uns instantes.
Fora num tempo louco desgarrado
senti que o amor estava no coração
sempre estivera lá ardente como furacão
senti a felicidade nesse corpo amarrado.
Depois foi madrugar os olhos
sentir o mundo fervilhar sem escolhos
sentir o mundo palpitar
lembrei-me de lábios para beijar
de sorrisos
dos risos
lembrei-me como se viver
era  sempre andar e aprender
por isso andei
em algum instante acreditei.


Jorge d'Alte
   







segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

PARA TI MÃE

Para ti com amor
escrevo esta imagem
é véspera de Natal
a lareira acesa
a mesa posta
eu sentado á tua espera.
Choro sem lágrimas
a tua saudade
talvez um dia me encontres
para lá do tempo
horizonte que traço
como abraço.
Para ti com amor
que me deste vida
falta-me esse colo onde ninei
amo e amarei
um amor que me destes e eu te dei.


Jorge d'Alte

UM AMOR SEM TEMPO

Quando as estrelas chegam
e a terra fica escura
quando a nossa luz é a lua pura
pouco vemos, os olhos apagam
e o medo vem no meio das sombras
monstros bailando nas memórias 
em forma de sonhos.
pesadelos medonhos
com heróis e glórias.
Quando os piares ecoam
e a terra se põe clara
vem a madrugada, o nome de Sara
os sentimentos ribombam
o sorriso dela
os lábios dela
a voz que dita palavras
e nos torna escravas
das dores de coração
um vendaval um furacão
um vento, uma brisa, um catavento
indica o norte, um amor sem tempo.


Jorge d'Alte

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

AO SOL TE VI

Ao sol te vi
como flor murcha 
desprendendo-se da vida.
Olhei para ti
teus olhos dentro da concha
uma alma perdida.
Ergui teu rosto
bebi as lágrimas
e cego me senti.
Teus lábios de mosto
palavras dirimas
e em ti me perdi.
Olhamos o sol posto
num abrasar de almas
um tempo curto.
Num gesto de gosto
num bater de palmas
um corpo que curto. 

Ao luar te vi
Como deusa insana
Nas sombras gemi
num corpo de gana
a seiva te dei
num ninho de mel
teu nome chamei
serei sempre fiel.


Jorge d'Alte

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

O ABSURDO E A ESPERA

 O absurdo estava ali
Alguém sentado esperava.
Porque esperava alguém
num dia chocho
num dia chuvoso
num céu sem
não havia nada nele
nem o nome daqueles que partiram
nem a gloriosa Lua.
Estaria? O coração batia
a morte nada brindara.
A espera esperada era por quem?
Era porquê?
O quem viria nas sombras 
sem rosto para ele nem sorrisos
era a ansiedade a sua espera
descobrir nos folhados  dos sonhos 
uns lábios uma boca
depositar neles algo em troca.
Havia mil ventos e uma pinga-pinga
enchia o copo devagar
o inebrio calmava a calma.
Alguém sentado esperava
chegou o porquê nos olhos vagos.
Sentiu as lágrimas antes do choro
Apertou as mão num grito morto
morrer, por amor era muita dor
era não ter, era o desfibrilar do seu corpo
Contorceu no inconformismo
levantou-se
a madrugada acolhera
deixara o frio ali morto na espera.


Jorge d'Alte

sábado, 14 de dezembro de 2024

O ENCANTADOR








Ele era o encantador.
Encenou a tarde bela com o por do sol.
Fê-lo cair para lá dos montes
para acender as estrelas
e criar a noite dos sonhos
Ele era o encantador
tornou cheia a lua 
embrulhou-a com luar.
Assim alguém poderia poetizar
dar amor aos corpos vagos
dançar com as sombras no madrugar.
Ele era o encantador
tornou a alvorada ornada de orvalho
lavou o frio com o calor do sol.

Amou
 beijou
sorriu
deu a mão

Ele era o encantador 
até ser encantado pelo amor
Eram vagas silhuetas
escondidas da solidão.

Jorge d'Alte
                                                                    
                                 
                                                         


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

NO TEU SORRIR

 

E quem achou
esse beijo dado
para o teu céu olhou!
E a asa que voa                                                 
na noite de lua ecoa
como beijo apertado
num toque de segredo.
Levou-lhe esse medo
num abraçar da alma
e nessa calma
Pode sentir;
que o que estava latente
era algo diferente
e dançou no teu peito
e luziu desse jeito
na ponta do teu sorrir.


Jorge d'Alte
 
 
 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

MIÚDOS DO POVO SÍRIO ( GÁZ)

 

Se houvera crime ele espelhava-se ali.
Gritos e choros corriam.
O desvario surdo sem passos soava a morte
contorcidos nos seus corpos
minguados e moles eles eram a dor.
Algures houvera a sorte
Uma voz pequena apelava aqui
outra soluçava quando fugiam
Onde estivera esse Amor?
O gás nevoento não batera á porta
entrara por ali como ladrão de almas
envenenara tudo e todos nas calmas
como Deus que não se importa.
Traçou o destino
impôs o martírio.
Algures alguém sem réstia de tino
é culpado de genocídio atroz.
Clamam justiça estes miúdos do povo Sírio
Caiam cabeças agora, não no infinito após.
 
 
Jorge d'Alte
 
 
 

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

SOU

 

Sou como nuvem corrida
no esgaçar do vento.
Sou sombra que sonha no escuro
noites de doçura, frescura na ausência.
O silêncio ténue só palpável no eco
levara imaginários no apelo
e só no cume do sono, o beijo sonhado
traz de novo notícias do teu corpo
silhueta descrita pelo manjar das mãos
pelos aromas rarefeitos que excitam.
Corro como nuvem soprada
ao sabor da bolina sonhando no ocaso
saboreando maresias sonhando luas
esperando que tu que és sombra algures
lances tuas redes de arrasto no vento solitário
e me abraces.
 
 
 
Jorge d'Alte

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

AMIZADE SEM LIMITES

Foi num dia de muitos sóis.
Espreitavam por qualquer frincha
enchendo as almas com o seu calor
trincando as memórias que por mim viajavam.
Nunca me olvidarei deste dia que ia como caracóis.
Veio essa imagem desenhada á trincha
uma cena horrorosa de um fiel amor.

Um orangotango encolhido; os olhos choravam
estava num estado comatoso, terminal
sorriu quando o tratador o afagou
beijou-o quando o abraçou em ternura
quando a suas mãos desajeitadas rictos de dor cavavam
até conseguir o resultado final
tocar nesse rosto humano; Aí o meu sorriso soçobrou
era minha a sua dor nesse momento de fofura.

Depois veio a tristeza
veio um sentir de pureza.
Inconformado me senti
de mil raivas me vesti
mas nada podia fazer
senão sonhar e voltar a ver.


Jorge d'Alte


sábado, 7 de dezembro de 2024

UM SOL AMOROSO

Hoje havia um sol amoroso
um sol manhoso nas nuvens.
Um olhar desconfiado 
viu o sol a ser tapado
sentiu a chuva molhá-lo
o vento afagando os seus cabelos.
Pareciam mãos exaltadas
arrepiando os pelos no prazer da paixão.


Jorge d'Alte 

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

UM CORPO LÍVIDO DESFEITO






                                             
Junto ao rio
o silêncio era calmo
perturbava-o apenas
o cair das folhas.
Antes houvera o frio
os dentes batiam como lendo um salmo
palavras degeladas como penas
bonecos na forma como olhas
mas não havia horizonte
não havia sonhos do de lá
havia passos para ir
havia tempos passados
havia memórias onde me prendi
esgotei  e bebi dessa fonte
talvez raízes cortadas para um xá
infusões de sentires do advir
os olhos traíram esgotados
as lágrimas eram secas e eu vendi.
Vendi o meu corpo na esquina
vendi o ódio a quem me possuía
raivas enraivecidas nas sombras
no ato, nas mãos monstruosas que vinham.
Fui um deserto ofegante de gente misógina
foi sentir a alma murchar quando me ia
foi rastejar pelas penumbras
fugir desses passos atrozes que se adivinham.

                                                                              

Junto ao rio
o silêncio era calmo
perturbava-o apenas
um corpo lívido; desfeito.


Jorge d'Alte




                                                              



domingo, 1 de dezembro de 2024

TIREI UM SONHO

Tirei um sonho da minha alma
como quem tira um coelho da cartola.
Era feito de corpo, lábios, paixão.
Procurei nele o amor numa noite calma
apalpei esse caminho como alma tola
deixei os lábios brincarem nessa boca de vulcão.
Tudo á volta não tinha eco
era prazer encalhado num beco.
Perdido fiquei na sombra meia
amor é só para que o semeia.
O sonho que tirara não fora do coração
apenas era um bocejo, uma desilusão.
Volteei nos lençóis como sofredor
estavam quentes, ardentes como a dor.
O seu perfume caçava-me os sentidos
insinuou-se cruciante, breves pruridos
levou-me ao inferno
nem um gesto terno
sorrisos cavaram na emoção 
o ricto pérfido da ilusão.


Jorge d'Alte


CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...