Canta-me uma canção.
Canta-me esta canção
de uma moça que desapareceu
como truque de ilusionista
diz-me; posso ser eu?
Olho o meu corpo e só vejo cicatrizes
daquelas que só se curam no íntimo
feridas por lavar, feridas que doem sem sarar.
Sigo enfrente calcando os meus cacos
sorrisos e olhares corpos a vibrar e o desejo
existe paz e tempo nos meus abraços.
Eu sei o que é não ser querido
eu sei que o mar é vivo e comprido
tal como o amor que como dádiva é castiço.
Vieste como a noite em passos de luar
tingi-te de estrelas com tintos de bago
Canta-me uma canção
dá-me a tua mão como refrão
Canta bela e encanta-me.
OH! como és linda, a minha traça
como me enrolas na tua alma, fragmentos soltos
tento agarrá-los com os meus beijos
sinto as veias cheias a transbordar, é a felicidade?
Diz-me!
Escrevo contigo a letra desta canção
de uma moça que desapareceu
diz-me; posso ser eu?
Ela tinha acordado no meio de sombras esborratadas
disse-me baixinho ao meu ouvido na alvorada
o amor que era dela antes do sol nascer
e no auge ferrou-me rasgou-me as costas com unhas
traçando destinos inacabados de sangue escorrendo
encruzilhadas para amarmos no leito de linhos
A canção morreu na geada da matina
a canção de uma moça que desapareceu
diz-me; posso ser eu?
O trovador emudeceu como última nota da melodia
e o meu poema ficou ali folhado entre a noite e o dia.
Jorge d'Alte
