sábado, 9 de maio de 2026

CANTA-ME UMA CANÇÃO







Canta-me uma canção.
Canta-me esta canção
de uma moça que desapareceu
como truque de ilusionista
diz-me; posso ser eu?
Olho o meu corpo e só vejo cicatrizes
daquelas que só se curam no íntimo
feridas por lavar, feridas que doem sem sarar.
Sigo enfrente calcando os meus cacos
sorrisos e olhares corpos a vibrar e o desejo
existe paz e tempo nos meus abraços.
Eu sei o que é não ser querido
eu sei que o mar é vivo e comprido
tal como o amor que como dádiva é castiço.
Vieste como a noite em passos de luar
tingi-te de estrelas com tintos de bago
Canta-me uma canção
dá-me a tua mão como refrão
Canta bela e encanta-me.
OH! como és linda, a minha traça
como me enrolas na tua alma, fragmentos soltos
tento agarrá-los com os meus beijos
sinto as veias cheias a transbordar, é a felicidade?
Diz-me!
Escrevo contigo a letra desta canção
de uma moça que desapareceu
diz-me; posso ser eu?
Ela tinha acordado no meio de sombras esborratadas
disse-me baixinho ao meu ouvido na alvorada
o amor que era dela antes do sol nascer
e no auge ferrou-me rasgou-me as costas com unhas
traçando destinos inacabados de sangue escorrendo
encruzilhadas para amarmos no leito de linhos
A canção morreu na geada da matina
a canção de uma moça que desapareceu
diz-me; posso ser eu?
O trovador emudeceu como última nota da melodia
e o meu poema ficou ali folhado entre a noite e o dia.


Jorge d'Alte














sexta-feira, 8 de maio de 2026

MÚSICA QUE NÃO ERA MINHA

 


                                      



 

Saí de casa de mãos nos bolsos 
trauteando uma música que não era minha
estava-me no ouvido quase um resmungo
de ter saído de casa insatisfeito cantando uma música.
Não era minha e falava de dor e saudade, talvez tristeza
piedade que não a quero ouvir; este tinir angustiante
estava-me no ouvido ressoando quase um resmungo
e a dor e a saudade gritavam no meu peito aguilhoando
como acabar com ela se ela não era ela, ela a eleita
e ela gritava no meu peito, cheia de dor e saudade.
Agora me lembro insano
o que eu queria era ela, ela a eleita
Rejeito a dor, a tristeza, mas quero a saudade
mesmo cantando uma música, que não era minha.
 
 
 
Jorge d'Alte
 
 
 
 
 
ou era eu insatisfeito de ter as mãos nos bolsos






























segunda-feira, 4 de maio de 2026

CAMPO DE COMBATE

 



Corro exausto num campo aberto
onde em vez de flores e trigo tenho minas
escuto os tiros e as bombardas, ai de mim!
O fumo esgota os meus olhos e fere-me a garganta
caio no chão quando uma mina rebenta
lá vai mais um, sofre a minha voz já sem fala.
Os gritos juntam-se aos gemidos onde um dia houvera pios
onde houvera crianças correndo atrás da bola ou jogando
agora o jogo é outro, finto a morte a cada segundo
o inimigo está lá escondido
treme tanto que se sente fodido.
Como matar crianças como ele, ou como eu
quando o sonho era ser médico e amar
como pode sorrir se eu lhe aponto a arma e disparo.



Vejo de fugida quando limpo o rosto, 
os seus sonhos a desfazerem-se com a surpresa no rosto
Quem era ele
quem o amara
porque nasceram
porque pereceram
arranho na voz a minha desgraça.
O silêncio assustou-me em demasia
podia ser o sinal de acalmia
ou a bomba que vinha.
Nunca o soube
A minha cabeça já não ouve
o meu braço
a minha perna
são bocados para um repasto
Os corvos caem e os necrógrafos arrancam
Nas veias secas o coração já não bate.
Sonhara antes com um céu de estrelas
e é lá onde estou, presumindo a salvo.


Jorge d'Alte










sábado, 2 de maio de 2026

ESPERANDO A SAUDADE

 



Corro contra o tempo
Como raposa atrás do coelho.
Deixaste-me um dia abandonado e sofrido
numa estrada perdido ao sabor da sorte.
Aqui estou eu tentando não chorar
não quero que lágrimas te possam ocultar
pois o teu coração vive longe no outro lado do mar
e eu navego nas velas, nas aragens e na tormenta
andando ás cegas
voltas extensas como ondas nos céus
andando nas ansias
por ti, um amor que deixei
quando o sol era manhã
e a geada me enregelava sem amor.
Sei que verei o teu rosto outra vez
num nascer de sol onde estás
que gritarei na terra e no mar teu nome de pétala
uma flor que um dia colhi entre fumos e bebidas.
Amei-te nessa noite
na praia despido
nunca esquecerei tua pele de arrepio
teus lábios cheios de desejos.
Navego nu num icebergue
num mar de tristeza e gelo
eu sou apenas um apelo
despojado de tudo o que por mim foi amado
e agora escorrido na dor frustrante
adormeço cego, esperando a saudade.


Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...