Corro exausto num campo aberto
onde em vez de flores e trigo tenho minas
escuto os tiros e as bombardas, ai de mim!
O fumo esgota os meus olhos e fere-me a garganta
caio no chão quando uma mina rebenta
lá vai mais um, sofre a minha voz já sem fala.
Os gritos juntam-se aos gemidos onde um dia houvera pios
onde houvera crianças correndo atrás da bola ou jogando
agora o jogo é outro, finto a morte a cada segundo
o inimigo está lá escondido
treme tanto que se sente fodido.
Como matar crianças como ele, ou como eu
quando o sonho era ser médico e amar
como pode sorrir se eu lhe aponto a arma e disparo.
Vejo de fugida quando limpo o rosto,
os seus sonhos a desfazerem-se com a surpresa no rosto
Quem era ele
quem o amara
porque nasceram
porque pereceram
arranho na voz a minha desgraça.
O silêncio assustou-me em demasia
podia ser o sinal de acalmia
ou a bomba que vinha.
Nunca o soube
A minha cabeça já não ouve
o meu braço
a minha perna
são bocados para um repasto
Os corvos caem e os necrógrafos arrancam
Nas veias secas o coração já não bate.
Sonhara antes com um céu de estrelas
e é lá onde estou, presumindo a salvo.
Jorge d'Alte
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