sábado, 28 de março de 2026

DESPREZADO

 



Hoje não chove
se chovesse lavar-me-iam as lágrimas
pois choro por alguém.
É escuro aqui dentro
onde sentimentos se escondem.
Está marcado na minha alma
o fogo de um amor desprezado
não posso esconder esta verdade
pois os demónios dentro de mim
cavarão a minha sepultura
com ódios, raivas, tristezas e dor.
Não importa  o que fizemos
quando senti esse calor
quando as cortinas se fecharam
e nós fomos nós
mas as cartas já estavam lançadas
e tudo o que reluzia era ouro assim pensava
afinal era um sonho apenas que fracassara
e me derrotara como escumalha.
Quando os dias vierem frios
hibernarei a fera dentro de mim
olharei esses olhos que me vergaram
não sentirei pena de mim
não haverá onde me esconder
sempre que nas sombras te vir
sempre que a lua voltar
estarei no meu inferno
mas não te posso deixar de amar.

Jorge d'Alte


quarta-feira, 25 de março de 2026

MIRAGEM

 



Hoje acordei
tinha sonhado sem saber
o que era o sonho quando me deitei
e ainda me sinto a estremecer.
Tinha havido música isso eu escutei
ou era o meu coração tolo e desvairado
correndo pelo vento através dos trigais que ceifei
talvez fosse a ansia de um cérebro avariado.

Havia mais lá embutido
o brasido que roía o corpo perdido
no nevoeiro que me calava o olhar
passo páginas e páginas de sonhar
e ali estava a luz, não era o sol nem a lua
apenas uma miragem me olhava nua.


Jorge d'Alte

segunda-feira, 23 de março de 2026

LINDO COMO OS PIMPOLHOS


Minha luz era pequena e branca como a lua
era aí que guardava os meus sonhos e desejos
tivera-os no coração até que o sol veio caindo e pousou
Soube nesse prelúdio o que era a paixão.
Estava esperando pelo quê? Que ela viesse nua?
Ela veio vestida de vermelho na contra luz, com lampejos
sua alma era a sua armadura donzela que me amou
que me deixou nos lábios a sua pureza como religião.

Chorei a noite até pegar no sono
ela amara-me até doer de prazer
muitas vezes fui dormir tão feliz
ao ponto de não conseguir fechar os olhos.
Invernamos abraçados até ao outono
escrevemos palavras  com o olhar a ferver
depois nasceu o nosso aprendiz
moreno, chorão, lindo como os pimpolhos.


Jorge d'Alte

sábado, 21 de março de 2026

A LIÇÃO



Sentados na ponte de cordame extasiados
o pai conta a sua história de como a vida é.
Diz-lhe que o mundo não acaba ali nas montanhas
que o rio corre o seu destino sem escolha
mas que ele pode seguir o sol a luz da sua alma
e almejar ultrapassar o obstáculo da sua vida
o horizonte que  enxerga nunca acaba
que a ponte onde se sentam é perigosa
une o passado ao futuro que nos foi traçado.


Jorge d'Alte

quinta-feira, 19 de março de 2026

O FURO


 


Sou criança no passado
e vivo  o meu vício dourado de negro
O recinto está vibrante e os meus olhos babam-se.
Pai posso fazer um furo?
a gula estremece no meu papo
pego no picador metálico e escuto o som a rebentar
olho para a saída com expectativa e lá sai o almejado.
Pego no chocolate " coma com pão" já sem prata
depois fico todo lambuzado-posso fazer outro?



Jorge d'Alte

quarta-feira, 18 de março de 2026

SONHO ABSORTO




Linda noite estrelada
traz-me de volta ao meu mundo
deixa os meus pés me levarem
mesmo que as estrelas caiam
uma a uma na estrada viciada
e eu chute uma fumada rasgando
abrindo caminho para o sonho absorto.


Jorge d'Alte

segunda-feira, 16 de março de 2026

RAPARIGAS INOCENTES

 




Havia chuva
não era molhada
era feita de fogo que caía.
O céu não era o mesmo
não havia estrelas nem lua
nem raios de trovoada.
Havia gritos, aflições boiando,
por todo o lado o choro morria
nesta noite de fumos negros e fatídica 
para centenas de raparigas inocentes.


Jorge d'Alte

O FADO






Este foi o meu fado
foi cantado sob o céu de maio
as notas pareciam estrelas de ternura
os tinidos eram de brisas sibilantes
o xaile era a noite de breu
mas o encanto eram os olhos que cantavam
a boca de lábios carnudos com palavras
que do intimo nos davam as lágrimas
o sentimento que se infiltrava na pele, arrepiada.


Jorge d'Alte

sábado, 14 de março de 2026

OS ESCOLHIDOS

 


Enquanto escuto o cantar do melro
ouço os passos da primavera ecoando
subindo a ladeira do morro lá no oriente.
De tanta chuva me fartei e do frio nem um chilro
noites de sombrias nuvens trovejando 
raios rasgando os céus num peito dormente.
Não a vi nessa altura do meu trauma
a lua, a minha e a nossa vogava como virgem nevada
enquanto o melro cantava na folhagem esverdeada
e eu contava estrelas iluminadas uma a uma.

Eram memórias dos eleitos que viajavam
tinham partido com uma esperança no rosto
e agora eram pontos submissos entre anjos e demónios.
Joguei o jogo que eles ansiosos jogavam
desde a alvorada fresca até ao sol posto
depois havia sombras dos escolhidos; anjos ou demónios.

                                                                    
Jorge d'Alte

quinta-feira, 12 de março de 2026

O INTIMO

 




Lá fora
a chuva cai.
Cá dentro de mim
são as lágrimas que escorrem
que me afogam neste mar que é a tristeza.
Ondas de memórias em ebulição
são o estado do meu intimo
que me cegam numa mágoa de perdido
então vêm as sombras tiranas dos sentidos
e a chuva cai lá fora
levando folhas da minha vida na enxurrada.


Jorge d'Alte

terça-feira, 10 de março de 2026

A PARTIDA

 



Fumo o meu cigarro até a cinza pingar o chão
estou furioso contigo meu amor
brado ao teu céu onde me esperas
não foi isso o prometido
sim não foi isso, 
vejo-te de branco com as violetas
vejo os teus olhos a falarem com os meus
Dissestes entre pestanejos que viveríamos juntos
-juntos- até aos fim do nosso tempo.
Puxo o fumo até me engasgar
numa fúria sem ódio ou raiva
não foi culpa tua, não foi culpa minha
deixaste-me ontem entre sombras da matina.
Parecia que dormias serena agarrada á minha mão
estava quente, ficou morna de repente
gelada quando gritei e gritei soluçando
já não sei o que disse o que implorei, as pernas tremiam
a cabeça estava vazia mas os meus olhos malandros
viam-te a correr subindo o morro entre a alegria
viam-te com o teu olhar cheio de luxúria deitada no trigo.
Vi-te partir entre chamas
como odiei este momento
Deram-me uma caixinha que escolhi, cheia do teu pó
há de ser lançada na onda de um mar
quando te juntar a ti nesse céu onde estás
onde as poeiras do tempo nos darão um novo corpo
onde não sei, talvez por aqui talvez noutra dimensão.


Jorge d'Alte

sábado, 7 de março de 2026

FLOR SILVESTRE

 



Estou irritado e fulo
de um jeito que me desgasta
tudo passa sobre mim
as estrelas a lua as nuvens
as pessoas de amores dados
as mentiras os medos a dor
e não me dizem o que acham de mim.
Sofro no meu canto arredondado no talvez
injeto o meu sofrimento nas veias
navego no tempo com o vinho
e no nevoeiro dos olhos vejo-te a ti perfeitamente
linda flor silvestre de face trigueira
selvagem abrindo-se na alvorada
depois de recolher o calor dos linhos
o sabor da paixão na ponta dos lábios
a volúpia dos corpos abraçados
no deleite dos corpos nus e suados.
Afinal no ébrio do amor onde é que estás?
Desapareceste como a geada  desaparece
deixaste um rasto de ti no perfume que evolaste
e eu parvo dos parvos não te segui.


Jorge d'Alte

sexta-feira, 6 de março de 2026

SALVAR CORAÇÕES


Muitas vezes tive que remendar o coração
por aquilo e aqueloutro pois sofria numa dor
-era minha- era assertiva e perdurava até
sim perdurava até os joelhos se vergarem
e as entranhas se vestirem de lágrimas de angústia.
O meu amigo -ele era e é- o remendador do coração
ele sempre me falou de mansinho rasgou o meu torpor
me falou de como a vida era- Ela era a minha vida a fé-
então sequei as lágrimas nos seus dedos até passarem 
de olhos clareados vendo o caminho deixando para trás a angústia.
Ela descia a ladeira
me deixou o seu sorriso
me devolveu a cor ao rosto
acenando me chamou na galhofeira
me deu a mão deixou o seu riso
o sol caía profundo num sol deposto.


Jorge d'Alte












quinta-feira, 5 de março de 2026

ROLETA DA SORTE

 


O céu anda estranho
antes de azul tingido
agora cinzento e castanho
como se de peste atingido.
Estou num bunker fechado
sinto as bombas a estralejarem
tenho duas crianças ao meu lado
que olham para mim sem pestanejarem.
Antes os olhos eram feitos de lágrimas
os primórdios eram medos horror e morte
hoje as crianças não brincam são lástimas
petrificadas  escutam a sua roleta de sorte.


Jorge d'Alte

terça-feira, 3 de março de 2026

QUE FARIAS TU







 


 


O que farias tu 
se o beijo se abrisse em mil desejos
e o sol nascesse no poente
e a chuva varresse das memórias
tudo aquilo que sofreste.
Que farias tu
sorriso lindo, cara trigueira, coração doce.
Que farias tu
se o amor não fosse ódio
se a ansiedade fosse desejo
e o corpo mero ensejo
na busca da felicidade.
Que farias tu 
se o beijo fosse meu
se o meu corpo fosse teu
se o sorriso fosse nosso
e a vida o nosso caminho.
Que farias tu?



Jorge d'Alte
 

domingo, 1 de março de 2026

ÓLEO DE FIGADO DE BACALHAU


 



O recreio já findara
a onda de brincadeira morrera.
O termo era mesmo esse
mesmo não havendo aulas
os rostos sisudos não enganavam
algo monstruoso vinha aí
vestia-se de branco
segurava um frasco empunhava uma colher.
A fila formava-se entre empurrões e frases
o primeiro abria a boca como que enferrujada
chiava de desgosto, desconforto e frustração
depois engolia o óleo fechando a boca agarrada ao sabor.
Era de horror a sua face enquanto os outros olhavam
a sua vez ia chegar também esperavam não vomitar
pois o seu terror iria aumentar numa nova toma.
Vivi tudo isto no meu passado
ainda sinto o seu cheiro a estragado
o seu sabor abominável
mas o que é certo era que crescíamos mais sãos.


Jorge d'Alte





CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...