sábado, 29 de março de 2025

JOGANDO AOS BERLINDES


Foi numa tarde pachorrenta
com um sol de calor arreliador
com um vento inconformado
pois esquecera-se das nuvens alvas
que adormecidas vigiavam.
Encontrei nesta tarde birrenta
três crianças no redor
acenaram para mim num circulo formado
reparei nas suas cabeças calvas
nos berlindes que jogavam.
Entrei no jogo lancei os berlindes emprestados
entre os risos abafados
tanta alegria naqueles olhares
mas tanta angustia escondida se bem reparares.
Jogamos até a noite nos vir buscar
amei-os - como não os podia amar?                          
                                                     
quando soube pelas suas vozes
que os seus corpos estavam a mirrar
que por vezes sofriam dores atrozes 
que engoliam o seu gritar cruciante
que viveriam numa luta esgotante.
Abraçamo-nos nas minhas lágrimas
beijamo-nos não em adeus
numa amizade cheia de rimas
Olhei o alto inconformado, porquê meu Deus!


Jorge d'Alte
  




domingo, 23 de março de 2025

QUERO-A E NÃO A TENHO







Hoje a noite está estrelada
bela para muitos amantes
astros brilham nos confins
mas, nesta noite solitária, estou triste
quero-a e não a tenho.
Muitas vezes tive-a nos meus braços
pequena rosca embrulhada nos abraços.
Beijei-a tantas vezes nos luares
como não amar seus olhos ternos?
Só de pensar que a perdi morro                                
                                                            

morro mais um bocado esmagado desiludido
choro por dentro como o rio nas gargantas
como não escrever triste se partiste?
Escrever que não a sinto
que o seu corpo é só sombra na memória.
A mágoa esboroa-se e cai como o orvalho
a alma definha no gelo que me aquece
tracejando como cometa laivos do amor dela.
A noite bela está estrelada                                             

mas a minha estrela foi-se
voou como o amor, acho... 
meu Deus que se acabou.
Oro a Deus que a encontre por aí
que a convença a voltar 
pois sofro muito por ela
que venha na paz de quem ama e me abrace
me beije como só ela sabe.
Estou perdido
descontrolado
a dor corroí-me a alma
e sofro desvairado.
Apertei-me no coração
busquei o seu calor
mas tudo o que me dá é dor.
Olho o horizonte buscando-a
para a trazer de volta
oro á Lua poemas de tristezas
olvido no momento as nossas fraquezas.
De joelhos me arrasto em promessas
rastejo no pus desta imensa ferida
chamo-a louco no desvario, na noite imensa.
Não me ouve
não a sinto
bebo o fel
vergado me arrasto por aí.


Jorge d'Alte




sexta-feira, 21 de março de 2025

O PASTORZINHO


As ovelhas cascavam
no solo rude de pedra cortada.
O dia espreitava fugindo da noite fria
o pequeno lá ia de varapau na mão
sacola á ilharga gorro na cabeça
precedido dos fiéis cães que o guardavam.
O frio era tanto, acolhido na neve e na nortada
hoje não havia escola nem gente que se ria
os sons eram da natureza e do coração
tocando nesse alto a sua peça.


Jorge d'Alte

O AMOLADOR


Ele era o amolador de facas
o ajeita guarda chuvas
tocava sua gaita, um aviso
e a pequenada corria ruelas fora
desvairados imitando.
mulheres saiam das casas com suas sacas
levavam-lhe tesouras e facas e guarda chuvas
que ele concertava entre ditos brejeiros e um sorriso
o som da gaita ressuscitava quando se ia embora
e a malta lá ia atrás dele cantando.

Ainda fico feliz quando de repente o som se sente
e os passos marcando o ritmo lá vão
entre as brumas dos tempos que habitam a mente
tudo parte das memórias e do bater apressado do coração.


Jorge d'Alte












quarta-feira, 19 de março de 2025

AS CRIANÇAS LISTRADAS


Clamam por aí que isto não não aconteceu
que milhões não foram mortos por um imbecil
que a guerra não aconteceu que foi ilusão.

Vi filmes horrendos das crianças listradas
de pés descalços martelando a neve
seguindo os seus pais até ao cadafalso.
A câmara de gaz não ilude ninguém
serras de ossadas contam a sua verdade
montes de roupa suja cheiram a pessoas nuas.
Espancados
Feridos
Torturados
que mais sevicias querem para a creditar.


Jorge d Alte


domingo, 16 de março de 2025

DE MÃO DADA


De mão dada
percorri caminhos com o meu pai
olhava as nossas sombras sempre crescentes
havia um amor e palavras sensatas.
Um dia a minha sombra era maior que a dele.
Foi como uma chapada
o cimo do monte estava ali mas a velhice cai.
Agora dou a mão aos descendentes
há amor e palavras sensatas
até qua a minha sombra seja menor do que a dele.


Jorge d'Alte

sábado, 15 de março de 2025

A MINHA ESCOLA



Lembro-me perfeitamente
eram tempos árduos de escola
Regras de usar calções quando esfriava.
Tempos em que apanhavas reguadas
só por não saberes dois mais dois igual a quatro.
Sapatos de verniz nos calçavam
meias subiam até aos joelhos
professores duros e velhos.
No entanto aprendíamos sem computadores
sem uso de telemóveis
Havia recreios cheios de vida
havia namoros e levantares  de saia
havia corrida jogos conversas de chacha.
havia amizade lealdade ajuda e futuro.


Jorge d'Alte

ARDINAS


Eram os ardinas
Apregoavam nas madrugadas
indiferentes á geada
"Olha o jornal - trás as notícias". 
Chamavam gentes finas
de sapiências carregadas
e na sua peugada
vinham curiosos e as malícias.


Jorge d'Alte

AMIZADE


Foi aos seis anos
que soube o que era amizade.
Estávamos na escola e eu triste
a avó partira sem dizer nada
não via as letras os números
só a névoa das lágrimas.

Eramos errantes ciganos
cheios de sonhos e realidade.
Gritei na surdina - avó porque partiste
uma mão suave e doce veio pela calada
afagos e abraços apertaram-me sinceros
houve sorrisos temerosos e um jorro de lágrimas.

Lágrimas divididas, choradas pelos dois
e do meio deste mar vieram palavras
ternuras e carinhos e por fim uma amizade.
Muitos anos depois havia de ser eu a abraçar
um corpo gelado sem brilho no olhar.
murchei o coração e as lágrimas eram minhas.

As saudades, as tristezas vieram depois
A amargura definhou-me em várias lavras
e hoje olho as estrelas sinto a nossa irmandade
imagino a tua face de sorrisos que tento caçar
oro por ti, por nós pela amizade que nunca irá findar
corro contigo no imaginário num tempo em que me abraçar vinhas.


Jorge d'Alte









terça-feira, 11 de março de 2025

FUGINDO


Bombas e bombas caindo
casas desfeitas muitos mortos
noites e noites sem sonhos só medos
Parti um dia sem mão que me guiasse
tudo acabava de mudar
deixei tudo lá atrás a casa os amigos
coisas que faziam parte de mim
Levei a esperança no meu olhar
onde havia ainda os ecos da fumaça e do estilhaçar.
Encontrei um lar uma oportunidade de ser feliz
uma irmã, doce e plena de bondade e amizade
aqui não havia guerra só alegria uma escola.
Hoje fiz um amigo
hoje tive um abraço
asas para voar pois ainda tenho sonhos
são coisas que quero agarrar
neste novo lar longe da guerra
Sonhos com os meus pais e irmãos                           
                                              

os avós
os tios
os amigos
e com os meus pés a dançar.


Jorge d'Alte



                                     







sexta-feira, 7 de março de 2025

CORRIDA DE SACOS


Aos pulos lá íamos 
dentro dos sacos
desenfreados na corrida
Desejos de vencer que queríamos
havia gargalhadas como afrodisíacos
havia porras e merda ditos de gente sofrida.
A amizade era patente
naquelas amostras de gente.


Jorge d'Alte 

quinta-feira, 6 de março de 2025

ERA ASSIM QUE DANÇAVAMOS



 

Era assim deste jeito
agarradinhos como lapas
que dançávamos nas garagens
bebidos em copos inebriantes.
Era boca com boca, peito com peito
murmúrios sonantes como harpas
eram lindas viagens
eram tempos inquietantes.

Jorge d'Alte















ENAMORADOS


Foi quando estava enterrado em tristezas
deambulando inerte por aí, não ousando
pois havia uma rapariga de saia rodada
cabelos de fogo que incendiavam alvoradas
que mirrava o coração num mundo de incertezas
só havia esse olhar languido criando
esta inconstância no meu peito, rasgada
queria namorá-la mas sentia o medo em carradas.
Conheci-a num dias de setembro sem por do sol
caminhando na praia molhando os pés na espuma
abdiquei de viver nesse momento, de boca aberta
uma beleza na contra luz, outra no oposto
como ratinho, como felino, como caracol
avancei pelos escolhos das pedras como um puma
E ela do seu jeito saltitava, viu-me da certa
pois sorriu, tudo se fundiu como sol posto
Que faço agora depois de tantos dias sem a ver?
minha alma só quer morrer
as saudades  picam o meu peito
as lágrimas espreitam mas não caem
são pontas de um sentir que se despenha
são bocados e pedaços de sofrer.
Via hoje sentada no meio do trigo e da aragem
Havia sorrisos no seu rosto, como lenha.

Levantou-se  com a vontade de quem gosta
Abraçámo-nos num imenso coração
mordemo-nos em beijos agarrados
beijos colhidos no deleite num corpo tenso de sedução
Queres namorar comigo? Ela gosta
chora-se de emoção 
tecem-se nós bem amarrados
havia algo que ainda não vivêramos, o mundo da paixão.


Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...