terça-feira, 29 de abril de 2025

OS BONECOS



                   

                           Eram dois bonecos esperando na tela
que alguém os visse os admirasse
e que com olhos de amante e cautela
os amasse.

Jorge d'Alte

O FIEL AMIGO

 





Sentado na calçada
curvado
as mãos escondiam o rosto
sobre os ombros um cobertor
encardido
sobre a alma a fé almejada
desamparado
as lágrimas corriam como mosto
traziam um amargo sabor
perdido
o seu fiel amigo essa criatura amada
roubado
as pessoas passavam ali por ele
como se fizesse parte da paisagem 
a dor
essa comia-lhe as entranhas como facada
era adorado
tremia de medo de nunca mais o ver em pele
ou correr pela aragem
orou ao Senhor.

Um latido
um ar esbaforido
uma lambedela
que fora feita dela
a corrente estava ali dormindo no chão desapertada
todos os braços foram poucos para os abraços da sua amada

Choravam os dois
beijavam-se os dois

Levantou-se ainda embargado
pegou nos poucos haveres vergado
arrastou os seus passos
ao som dos latidos e dos abraços.

Jorge d'Alte


                                                                  

sexta-feira, 25 de abril de 2025

NO CALOR DO NOSSO BEIJO


Dois bancos e uma árvore
o dilema da esquina
o horizonte espraiado
num mar ou num rio.
Um dos bancos sofre
o outro arrogante risse
olhando a esquina disse - é o meu passo!
O sofredor olha em seu redor
- vou pelo horizonte
ultrapassarei os escolhos deste mar que é a vida
ou subirei o rio até ao alto e aí estarei com Deus
porque vais pelo mais fácil porque está já ali?
a um passo?
é a tua incógnita.
Eu irei por lá
encontrarei o meu ouro
o meu vinho de vencedor
e viverei feliz com tanto amor.
E se ao virar
estiver a morte
no horizonte posso escolher
demorará mais tempo até ser feliz
pois aí estarei eu em companhia
construiremos o nosso mundo
no calor do nosso beijo.


Jorge d 'Alte

domingo, 20 de abril de 2025

PASSOS


Eram passos que ouvia
os meus atrás do dela
eram como pingos de chuva que caía
soprados pela ventania da aguarela.
Só consegui alcançar a sua sombra
pintá-la já o anoitecer se mostrava lá
era o sítio onde ela vivia como quem assombra
o ninho onde seduzia quem passos trazia até lá       

Foi esta a minha prisão
fora uma mordida no coração
e agora como zombie sou passos
passos que que perseguem passos
os meus desesperados e os dela
inchados de amor ilustrados na aguarela.


Jorge d'Alte

quinta-feira, 10 de abril de 2025

LÁ VÊM ELAS


Lá vêm elas sob as vagas
a cruz gravada nas velas enfunadas. 
Na areia espumosa pés esperam há olhares
nervosos, ansiosos caindo de joelhos em oração
os xailes abanam no vento deixando as vozes cantar.

Ó mar que tudo tragas
trás meu homem de volta nessas naus sagradas
não queremos riquezas vénias, apenas o que achares
As cordas restolham pelo ar num turbilhão
caiem nas pedras do cais com a nau a encostar.

Lá dentro os hurras gritam triunfantes
Homens mais velhos do que dantes
choram de alegria clamam pela sua amada
Alguém chora na areia perdida e acabada
o marido tinha caído borda fora na borrasca
afinal as naus eram uma espécie de casca
navegando nos mundos enfrentando monstros vendavais
levando a Fé nos pedestais.


Jorge d'Alte

quarta-feira, 9 de abril de 2025

COMO UMA FOLHA

Hoje sou como uma folha
arrancada e dorida
vagueando pelo vento
pelo rio.
Sou uma folha caduca que ninguém olha
que vai e vem sacudida
alguém sem alento
de quem eu próprio me rio.                               
                 

Desespero na mágoa de te ter perdido
de não ter conseguido destrinçar
a tua alma era como um novelo sem fio
que eu deixei escapar pelos dedos.
Foste aquela que eu amei com sentido
aquela que me caçou com um olhar
lanço a mim um desafio
que acabe com os meus medos.
Já a noite me tinha vindo buscar
e o sol marinava no mar angustiado
quando te encontrei sentada ao pé do moinho
olhando
Teus lábios vermelhos eram tentilhões a cantar
uma voz de cristal num ébrio mastigado
chorava devagarinho
soluçando.
O abraço que lhe dei deixou-a a tremer
senti o seu seio enrijecer seu corpo a colar
Os meus lábios caíram de sede 
de paixão.
sou agora um fruto a comer
o drama do sussurrar
bocados de nós que caiem na rede
sou a sua emoção.

No céu arenoso a lua catita
na ponta dos nossos dedos o afagar
nas mentes o coração
na alma o amar.


Jorge d'Alte










domingo, 6 de abril de 2025

VOCÊ SINTA A MINHA FALTA







Lembram-se das noites nuas
junto das fogueiras rindo
lembram-se dos corpos que se davam
nos fumos malucos que nos torciam
quando tínhamos a floresta nos nossos olhos
e as roupas jaziam espalhadas pela terra
e os beijos eram doces no esfuzio.
Lembram-se de como eles pareciam saber
que todos íamos falhar
olha para trás quando nós eramos jovens
e o mundo era nosso embora não fosse o que queríamos
quando tivemos de rastejar pelo chão
enquanto eles nos empurravam para baixo
você estava lá
você me ajudou a vencer
eu ainda sinto a sua falta
eu ainda sinto a sua falta e o seu amor.
Você ainda está por ai
que você me espera por lá
sempre pensei que viria para casa
as coisas que nós fazíamos
as coisas que dizíamos
se isto não machuca daquele jeito
então me deixe ir
entrar nesse mar
deixar os meus sonhos na areia
partir sem lágrimas 
entrar no céu descalço e nu
esperando que um dia
você sinta a minha falta.


Jorge d'Alte













sábado, 5 de abril de 2025

PERDA



Olhei o céu de breu
a cor com que a minha alma se vestia.
Chamei os ventos e pedi
que me trouxessem o meu romeu
ao mar e ás areias roliças de invernia
gritei a minha angústia a minha mágoa e cedi.
Chorei as lágrimas                                                  
                                   

tremi na fala quando o vi
enfunado nas ondas de emoções
como cavaleiro em esgrimas
lutando contra o desdém com que o perdi 
falando nos sussurros que enchem os corações.

Á minha volta voavam os demónios zaragateando
catando os meus beijos e enjeitando
roubando-me as palavras arrependidas
baralhando-me as memórias consentidas.

Fechei os olhos de saudade
afinal tinha havido felicidade
então porque a desperdicei
naquele dia sombrio em que me afoguei.
Era ódio dentro do amor que avassalava o peito
eram olhos cegos de raiva a eito
e assim nas sombras dos remorsos que senti
peço aos deuses aos anjos que me levem a ti.

                                                                     



Jorge d'Alte 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

O COMILÃO








   




Vivia no campo ao ar aberto
em  frias madrugadas ao sol desperto
nas intempéries rasgando os céus roxos
em intimas conversas de paradoxos.
A sua cabeça careca martelava lá dentro
tenho que emagrecer! esta dor que esventro.
Na sua casa de pedra gastada
numa cozinha bem abastada
fazia as refeições remexendo os tachos
mas a gula vespertina caia aos cachos.
Um pouco de presunto
muda de assunto
pede-lhe a mente
com ar inocente
acrescenta- Ah! meu chouricinho,
de bucho mais um pouquinho.
Depois corria para fora
levando o almoço feito na hora.
Sentava-se na margem junto ao rio
dava ao dente de fio a pavio 
Um arroto deveras distinto
apelava no paladar a um pouco de tinto
De bochechas avermelhadas
do tinto em camadas
adormecia nos trigais
a sua mente era como a dos pardais
sonhava rojões á moda
com a barriga a andar á roda.
Soltou um ai que me cago
agarrou nas calças correndo; fora o preço pago.



Jorge d'Alte












terça-feira, 1 de abril de 2025

MISTÉRIO



Ela era o meu mistério!
Passava alguns dias pelos meus olhos
sempre em dias de muita chuva
cabelos ruivos esvoaçando na humidade
um casaco vermelho até ao queixo, tacão alto
guarda chuva como arco iris escorrendo pingas
poças que espirravam como que constipadas.
Da sua face sardenta não nasciam sorrisos
seus olhos cinzentos da cor da tempestade
iam de tristeza em tristeza, era o que eu sentia.
Suas rugas perturbadas continham perolas sem sentido
Chuva ou lágrimas foi o que eu pensei
talvez o seu gelo a derreter desde a alma até á pele.
O sol fisgava-se nas nuvens e eu não a via
os melros saltitavam na calçada e eu não os queria
havia pios de aves folhas nos ares flores fechadas
como fechada era a sua alma sem brilho.
Sentava-me no banco de madeira do jardim numa ansia
espera que me endoidecia como nos sonhos que sonhei
não conseguia escutar os seus passos batendo
até que os aguaceiros despejavam sua água de chuva
e lá vinha ela rua fora de casaco vermelho
meias verdes pelo joelho
guarda chuva ondulando no vento.
Foi num dia como este que eu gritei histérico - basta!
Sobressaltada virou-se
sua tristeza do seu olhar se pirou.
Houve um sorriso agastado
depois cavou seus passos na calçada
deixou-me a saudade escarrapachada
nunca mais voltou.



Jorge d'Alte














CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...