Ela era o meu mistério!Passava alguns dias pelos meus olhos
sempre em dias de muita chuva
cabelos ruivos esvoaçando na humidade
um casaco vermelho até ao queixo, tacão alto
guarda chuva como arco iris escorrendo pingas
poças que espirravam como que constipadas.
Da sua face sardenta não nasciam sorrisos
seus olhos cinzentos da cor da tempestade
iam de tristeza em tristeza, era o que eu sentia.
Suas rugas perturbadas continham perolas sem sentido
Chuva ou lágrimas foi o que eu pensei
talvez o seu gelo a derreter desde a alma até á pele.
O sol fisgava-se nas nuvens e eu não a via
os melros saltitavam na calçada e eu não os queria
havia pios de aves folhas nos ares flores fechadas
como fechada era a sua alma sem brilho.
Sentava-me no banco de madeira do jardim numa ansia
espera que me endoidecia como nos sonhos que sonhei
não conseguia escutar os seus passos batendo
até que os aguaceiros despejavam sua água de chuva
e lá vinha ela rua fora de casaco vermelho
meias verdes pelo joelho
guarda chuva ondulando no vento.
Foi num dia como este que eu gritei histérico - basta!
Sobressaltada virou-se
sua tristeza do seu olhar se pirou.
Houve um sorriso agastado
depois cavou seus passos na calçada
deixou-me a saudade escarrapachada
nunca mais voltou.
Jorge d'Alte