terça-feira, 29 de abril de 2025

O FIEL AMIGO

 





Sentado na calçada
curvado
as mãos escondiam o rosto
sobre os ombros um cobertor
encardido
sobre a alma a fé almejada
desamparado
as lágrimas corriam como mosto
traziam um amargo sabor
perdido
o seu fiel amigo essa criatura amada
roubado
as pessoas passavam ali por ele
como se fizesse parte da paisagem 
a dor
essa comia-lhe as entranhas como facada
era adorado
tremia de medo de nunca mais o ver em pele
ou correr pela aragem
orou ao Senhor.

Um latido
um ar esbaforido
uma lambedela
que fora feita dela
a corrente estava ali dormindo no chão desapertada
todos os braços foram poucos para os abraços da sua amada

Choravam os dois
beijavam-se os dois

Levantou-se ainda embargado
pegou nos poucos haveres vergado
arrastou os seus passos
ao som dos latidos e dos abraços.

Jorge d'Alte


                                                                  

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