segunda-feira, 30 de junho de 2025

LÁ VOS ENCONTRAREI MEUS IRMÃOS NOS CÉUS


Um dia fizeram-me escravo
aguilhoaram-me e ferraram-me o cravo.
Milhares de choros de milhares dos meus
eu que nasci livre e audaz debaixo dos céus.
Solidão do escuro do sol e mínguas de águas e vitualhas
a dor que sofre só, o esquecimento das noites, malhas
que nos cravam nas mentes sem esperanças, a dor que mói
roem-nos nas escuras tábuas molhadas, nas peganhentas águas, como sói.
Quarenta anos sem ver luz; ai choça humilde em que nasci
ai terras férteis, meu coração amado, amarga dor sofri.
O verdugo chicotear-me vem, rasga-me carnes e debalde espera
que gema a dor no estalar que vem, marcar-me as costas, como fera.
Hoje lancei um barquinho de papel, levava lá dentro os sonhos que sonhei
hoje não haverá solidão, dor, tristeza, só a certeza que ganhei
um lugar na morte
minha triste sorte.

Lá vos encontrarei meus irmãos nos céus


Jorge d'Alte

domingo, 29 de junho de 2025

UM DIA


Nós eramos gémeos
andávamos sempre juntos com o avô
escutávamos histórias que adorávamos
cheias de sentido e conselhos.
Um dia o avô não veio e ficamos petrificados na solidão.


Jorge d'Alte

quinta-feira, 26 de junho de 2025

ADRENALINA


Aqui vamos
as pernas correm com os pés a bater
a escola acabou e depois de lanchar
é tempo de brincadeira.
Na rua gritamos
ecoam as alcunhas ó pá tens de ver
tocam-se ás campainhas sempre a berrar
era a adrenalina chocalhando porreira.
Passa a bola
salta á corda
atira a malha
esse berlinde é meu.
joga para a tola
lá vamos como horda
vem o golo que me calha
vem a macaca salta como eu.
Hoje a adrenalina está nas pontas dos dedos
as bocas cerradas não têm risos
nos olhos percorrem medos
há hackers; jogam sem sisos.

Onde está a amizade
que valores tem esta mocidade
e o amor sem rosto
numa foto ao sol posto
Que linda que és
da cabeça até aos pés
No café da esquina está o encontro
a tua boca abre-se de espanto um monstro.
Choras na rua sentes-te enganado
as lágrimas acusam-te deste passo dado
O coração seca como flor fresca
já não sente torna-se uma forma burlesca
não há alegria
é uma sangria
há a tristeza
este tempo reza.
Eu para os meus botões digo
o meu tempo é que era
era só adrenalina, era.


Jorge d'Alte








domingo, 22 de junho de 2025

AMEI-A

Amei-a quando a vi
quando o coração pulou
quando nos braços a senti
quando o amor dançou.
Não sei se era dia, noite, madrugada
se estávamos no céu ou na terra
sei apenas que a pedi como namorada
e amo-a, amo-a na paixão que me ferra.


Jorge d'Alte
 

sexta-feira, 20 de junho de 2025

quarta-feira, 18 de junho de 2025

QUERO SER PEQUENINO


 A minha infância foi assim
tinha amizade dentro de mim
amor de pele rosada de tanto brincar
adorava este mundo corria para ganhar
e foi a correr atrás da prima que parti o meu dente
chorei no seu abraço com sangue presente.
Cresci e toda a inocência se foi
vi-me num mundo que dói.
Quero voltar a ser menino
quero ser tão pequenino
escutar a mãe a embalar
enroscar-me e não acordar.

Jorge d'Alte

terça-feira, 17 de junho de 2025

QUE ACONTECEU?


Que aconteceu neste dia de primavera
quando a mente estalou acordando-me
enfiando-me num sonho que não o era
e lá ia eu vagueando ao sabor das luzes
não havia brisa nem o temível vento do norte
nem a cacimba do velho junho.
O sonho não era meu mas do pesadelo
vogava no ar atado como um balão
tinha dentro de mim uma confusão que me mirrava
o corpo tremia não de medo mas de paixão.
Como isto era possível se o meu olhar ainda não se colara a outro
estava lá na minha confusão sem rosto sem lábios só emoção.
Caraças tenho que acordar!
Fui sorvido num buraco negro e aí vou eu
gritei sem som sem eco mas com indignação
e lá estava o rosto sem face sem olhos mas com lábios.
escolhi os vermelhos poi eram um inferno sem fogo ateado.
Bruxuleou e pegou em mim rodopiou no ar assim do seu modo
Vi sair a voz concava através dos dentes brancos como linhos 
e foi nos linhos que acordei pasmado.
Que se passou meu Deus?
Alguém me abanou com olhos no rosto e me abraçou
rasgou a minha alma tentando extrair o amor que lá escondia
por isso me beijou até ser eternidade.


Jorge d'Alte







 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

O MEU DIA



Milhões de anos
viajando no cosmos sem fim
levando no ventre vida
catástrofes e morte.

Hoje o sol ergueu-se com humanos
entre nuvens e sombras mais ao menos assim
beijou-me com subtileza aguerrida
afinal hoje era o meu dia de sorte.
Fora criança um dia entre os milhões de anos e de vidas
mas hoje com dezenas sou uma gotícula 
alguém que ama a vida preciosa
que luta nas intempéries com amor.
O aniversário correu bem com beijos abraços pessoas amigas
Senti-me como mera partícula
viajando sereno em vida amorosa
pelo breu do cosmos disparada para lá do destemor.


Jorge d'Alte



sábado, 7 de junho de 2025

A JOANINHA



Joaninha vivia feliz!
Amava seu corpo suas cores
tinha vestido seu fato vermelho com pintinhas.
Todos a invejavam e por um tris
não fora escolhida como a mais bela, daí as dores
mas não esmoreceu juntou-se ás outras joaninhas.
Passeou nas tenras folhas
voou de flor em flor
distribuiu os poléns por ali
Vê lá como me olhas!
Os olhos olharam-na como sedutor
estou sofrendo de amor, por isso tini 
O teu tinir tem uma melodia engraçada
ama-me e morro por ti!
Bateu suas asas de fogo
transpareceu no sol apavorada
tentou escapar por aqui, por ali
tudo era um jogo.

Por fim cansados acasalaram
Novos dias passaram
As crias vermelhas com pintinhas
eram belas como joaninhas.


Jorge d'Alte







quinta-feira, 5 de junho de 2025

NO SONHO Á DERIVA


No Sossêgo da noite
a maré bailava-me nos sonhos
enquanto a lua cuscava por entre nuvens negras.
Que se passaria ali para o vento se calar
as ondinhas definharem no seu embalo?
Era eu e era ela pois ela era o meu sonho
Porque vigiariam os deuses o nosso amor?
Havia fumo e vinho a rodos nos lábios da boca
havia gargalhadas esfusiantes descomedidas
corpos dançantes como amantes
o olhar dela embevecida
tirando dos meus olhos os medos envergonhados.
Abraçamo-nos na música que nos enlevava
era serena como ela era linda como ela era bela
até que o trovão rugiu e relampejou
tirando-me do sonho deixando-me á deriva como um tonto.


Jorge d'Alte

terça-feira, 3 de junho de 2025

FUGINDO


Ela veio perdida
saindo dos fumos
deixando para trás
agruras de uma guerra infame.
Vida perdida
os amigos são saudade sem rumos
ás lágrimas são família ao som de pás
momentos cruciantes que não deixarei vergar-me.

Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...