Um dia fizeram-me escravo
aguilhoaram-me e ferraram-me o cravo.
Milhares de choros de milhares dos meus
eu que nasci livre e audaz debaixo dos céus.
Solidão do escuro do sol e mínguas de águas e vitualhas
a dor que sofre só, o esquecimento das noites, malhas
que nos cravam nas mentes sem esperanças, a dor que mói
roem-nos nas escuras tábuas molhadas, nas peganhentas águas, como sói.
Quarenta anos sem ver luz; ai choça humilde em que nasci
ai terras férteis, meu coração amado, amarga dor sofri.
O verdugo chicotear-me vem, rasga-me carnes e debalde espera
que gema a dor no estalar que vem, marcar-me as costas, como fera.
Hoje lancei um barquinho de papel, levava lá dentro os sonhos que sonhei
hoje não haverá solidão, dor, tristeza, só a certeza que ganhei
um lugar na morte
minha triste sorte.
Lá vos encontrarei meus irmãos nos céus
Jorge d'Alte

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