quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

AMOR DE UMA NOITE




Era abril de lua cheia
era a primavera a sorrir
e eu preso numa teia
urdida, sem saber como fugir.
Havia tentação e lascívia
no olhar com que me via
paixão no meu coração
era sinal de perdição.
Fui ter com ela e dançamos
a musica dela e a minha
em acordes despedaçamos
a geada de uma rainha.
Houvera copos na mão
numa conversa sem sermão
houvera lábios, línguas, bocas                              
mãos afagantes como rocas.
A noite fora nossa na sedução
mas o amanhecer sem lua
trouxe pássaros e borboletas e emoção
foi a dor de uma lágrima foi a dor crua
Vergado caí
no adeus e parti.


Jorge d'Alte


O QUE É AMAR COMO SE AMA


Acordei cedo nessa manhã
abri a janela do sol e o vale lá em baixo
não havia escola mas havia ela
estava nua de sonhos, mas mal ela sabia.

Desci a vereda verdejante ao encontro
descobrira um lírio branco preso nas pedras
com ternura saquei-o da mingua de terra.
Com ele tive asas de sonho, fora por um motivo feliz
eramos ainda crianças mas amava-a.
Perguntara á avó o que era amar, como se ama.
Seu sorriso encheu seu rosto pejado de rugas.
Lembrou-se do seu companheiro com um suspiro.

Amar é ter carinho, é afeto é gostar tanto 
são qualidades e defeitos em equilíbrio.
Ama-se com o olhar, com o beijo com o sentir
Ama-se como um abismo onde voamos de mãos dadas
onde nos misturamos em sentimentos de querer.
Só não compreendia o abrasar que sentia quando a via
e as pernas?
Periclitantes tremiam como searas ao vento.

Hoje era o dia dos dias por isso seu coração sorria.
Encontrou-a no prado ao nascer desse dia
Estava linda recortada no céu dividido de cores
o seu coração batia para ali sem saber ao certo porque batia
ele sabia que ela era diferente das outras como os lírios o eram.
Aproximaram-se devagar saboreando o momento
ele com o lírio escondido atrás das costas
la com um sorriso.
Sentiu-se perdido
estendeu o braço oferecendo o lírio branco
Ela reagiu como tresloucada
puxou a cara dele
beijou os seus lábios sem cor
murmurou como os rios com suavidade
Amo-te tanto meu amor!


Jorge d'Alte










domingo, 23 de fevereiro de 2025

PERDIDO


Foi num dia assim
céu azul e erva verde
que vieste para mim
boca que me perde
cabelos escuros voando
olhos profundos como névoa
um corpo roçagando
um ardor que me voa.
Que palavras dissemos aí
notas que afinaram no ouvido.
Sentados, nos teus lábios caí
lábios vermelhos de paixão, perdido.


Jorge d'Alte


sábado, 22 de fevereiro de 2025

AS CONVERSAS DO AVÔ


Já aparecia a penugem do bigode 
quando sentado escutei palavras
O avô falava comigo sentado num banquinho
eu ficava-me pelo pequeno pipo de carvalho
ao lado um copo de leite uma caneta na mão e um caderno.
Falávamos de coisas da vida e do pagode
de amor e amizade, respeito e outras lavras
Contou-me como se apaixonara o seu coraçãozinho
num dia de primavera á beira do rio como paspalho
de olhos abertos, sem  voz na garganta, mas terno.

A água caía fresca nos godos
cantando a sua canção infinita
Eram cabelos ruivos encaracolados
que baloiçavam atados com fita.
Voltou-se surpreendida
e o surpreso fora ele
A sua tez escura cheia de vida
uns olhos verdes e uma pele
Era luzidia acetinada era bela
a voz clara e uns lábios de fogo.
Ele estava parado ali logo
à toa disse o seu nome, Martim
a Avó - chamo-me Matilde, foi assim
Sentados já no entardecer num lindo penedo
Pediu-lhe um beijo que caiu doce, sem medo.


Jorge d'Alte


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

ARCOS E GANCHETAS


Eramos pequenos mas tínhamos imaginação.
O arco veio junto com a gancheta
as pernas corriam e o arco á frente
guiado pela gancheta numa corrida imensa.
Olhávamos os amigos com o coração
chamávamos ao último de perneta 
todos corríamos numa amizade quente
e hoje vejo jovens sem presença
escondidos nas salas dispersos por aí
amizades digitais sem voz  nem calor
mensagens  de amor  com beijos de Imogi
ruas vazias sem sons de criança só bolor
Sinto-me feliz porque vivi
esses tempos em que encantávamos
tu aí eu aqui                                                                 
                                                       

olhos que amávamos
mãos que se davam
palavras que coravam
corpos de ski
deslizando na dança
corpos seduzidos depois de criança.


Jorge d'Alte









terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O IMENSO DOS MEDOS










Quando as sombras da noite chegam
e a terra fica escura
e a Lua é a última luz
vemos o imenso dos medos                             

sentimos beijos sem calor
abraços estrangulantes
murmúrios de brisas de bolor
secos de palavras
mãos de angústias
que espargem esperanças.
É a solidão que nos mói
que nos caça e destrói
é paragem que nos dói
até a madrugada acordar
o sol viver as memórias
trazendo e liberdade de escolher.


Jorge d'Alte

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

O VENDEDOR DE LINGUAS

 











Olha a língua
Olha a língua da sogra
apregoava indiferente á borrasca
Estendi a mão com dinheiro na míngua
aqui está a sua língua da sogra
por favor com canela como casca.
Aos saltinhos lá fui saboreando-a.
Hoje tenho saudades desses tempos junto á praia
em que víamos raparigas de mini saia
sem sabermos como saborear
olha a língua da sogra
olha a língua da sogra
continuava o senhor a apregoar.


Jorge d'Alte


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

O CAVALO DE CARTÃO


Era um menino sonhador
um herói de aventuras
vencia meus medos com valentia.
Num dia ameno com sol grelhador
encontrei um cavalo e começaram as agruras
havia que montá-lo para uma bela fotografia.
Era enorme o cavalo, uma altura assombrosa
ao seu lado um tio e sua máquina aterradora
semicerrei os olhos pus o pé no estribo.
Olhei de soslaio peguei numa rosa
num impulso sentei-me na caixa de pandora
Olhei para baixo para o meu mundo esquivo.
Na minha mão a rosa e uma moeda de prata suja
dei-a a meio medo ao tio sentado apontando com o dedo
a máquina era parte do meu terror tremia na minha mente
O tio sorriu para mim um sorriso de coruja
pus-me a toques escondendo o meu medo
Um manto negro escondeu o tio de repente
escutei os ardores de uma luta, o manto a abanar
Um estrondoso clique soou pelo ar
Pode descer já está
desci decidido para já
para meu espanto o velho saiu do manto
vencera a luta com a máquina por enquanto.
Vi-me na fotografia aterrorizado mas belo
montando  um cavalo de cartão em pelo.

Hoje recordei
a pessoa que fui e serei
Olho o cavalo de cartão
o tio dormindo a sesta
a máquina de plantão
miro a moeda que me resta

Caminhei sorrindo
lá atras o cavalinho de cartão
soltei uma gargalhada rindo
afinal domara-o com o meu coração.


Jorge d'Alte 












CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...