sexta-feira, 31 de outubro de 2025

DIA DOS QUE PARTIRAM




Hoje há uma brisa no meu olhar
é a tristeza que chega devagarinho
é a saudade que me tolhe.
Há uma nuvem também nos meus olhos
fugiu do coração quando a lágrima chegou
Ficou ali presa, suspensa na dor e mágoa 
juntei as mãos e levei-as ao céu
o meu murmúrio era uma oração
e as memórias vieram como pingas
como folhas desfolhadas da árvore da vida.
Os meus olhos cerrados viam para lá das trevas
tantas alegrias juntas como molho de searas
já tinham tido cor quando o sol as amava
tinham partido um dia quando o gelo as tomou.
Reza a história que são estrelas numa constelação
mas para mim são bocados do meu coração.




Jorge d'Alte
(para meus pais e avós e meu melhor amigo)

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

A TUA BELEZA

 



A tua beleza
destrói-me
já não sei pensar
já não sei sentir.
O teu rosto
os teus olhos
o teu sorriso que nasce
quando te olho.
A tua beleza 
confunde-me
já não sei onde estás
já não sei onde estou
e os teus cabelos negros
a acenarem no vento.
a tua beleza 
emudece-me
já não sei sorrir
já não sei sonhar
teu rosto
teu olhar
teus lábios
teu coração
é tudo o que tenho
para amar.


Jorge d'Alte

domingo, 26 de outubro de 2025

SOLIDÃO




Solidão
este negro silêncio que me esmaga
este negro sem cor
sem som, sem luz
que me abafa. 
                      Este ar sem oxigénio
                                sem vida
                                sem brisa
                            que me acaba.


                                                             Este negro sem poema
                                                             sem música

Este negro que me há de vestir
este viver sem sol a sorrir
este rumo sem direção
este falar sem eco
este nada que me isola
este passar de dias que me envelhece
este estar só que me há de enterrar.



Jorge d'Alte

CRIANÇA DA RUA

 



Criança da rua
que brincas ao berlinde na sujidade quase nua
que vives presa a um casebre feito de estrelas e de chuva
que te vestes do nada e comes a tua própria fome
que te cobres com a noite e te aqueces com o sol
e passeias de mãos dadas com o vento
que leva os teus pensamentos como folhas mortas
e bebes as tuas lágrimas.

                                            Porque não hás de viver?
                                            ter família
                                            ser alguém.


Jorge d'Alte

sábado, 25 de outubro de 2025

A PORTA QUE BATE

 



Eram sonhos de linhos brancos
eram noites de deleite
um corpo branco que se entrega
uma chama que queima os seios
o sabor do vinho nos lábios
duas línguas que se afagam
dois olhos cinzentos e mãos.
O que faltava ali era amor
só havia desejo, uma enorme paixão.
Houve o som de uma porta que bate
deixando ficar no sonho a solidão.

                                                                             


Jorge d'Alte

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A AMA


De repente fui atirado para a meninice
Ela era a Rosália a ama que me criou
Mimou-me nas doçuras apoiou-me nas travessuras
lavou-me tirando-me  os ódios
limpou-me a alma dos desgostos
criou manjares de respeito e educação
e enquanto eu crescia pequenito
ela definhava já sem tempo, agarrando as rugas
perdendo os dentes mas não os sorrisos
e sempre, sempre me dando essa mão
outrora fora quente e fofa
agora mais fria e rugosa.
Nunca a esquecerei em cada madrugada que cresça
em cada flor florida em cada noite que caia e eu sonhe.



Jorge d'Alte








SALTA; DANÇA... A GUERRA!


Salta, salta, salta
Salta , salta olé 
salta, salta, salta
salta só com um  pé.
Eram tempos caídos
ocultos pela tecnologia
eram recreios distraídos
conversas, leituras, energia
era amizade, união
namorisco, beijo escondido
era dar a mão
correr como perdido
e a canção lá estava
no salto que cada um dava.
Salta, salta, salta
salta, salta olé
salta, salta, salta
salta só com um pé.
Depois vieram as garagens
a música aos berros
os corpos e as colagens
os beijos perros.
Dança, dança, dança
dança ,dança, olé
dança, dança, dança
assim é que é.
Os corpos esvoaçavam 
na fúria das músicas
as faces roçavam
paixões únicas.

Veio a guerra, morte e estropiados
veio a tristeza, a pobreza
vieram novos tempos agoniados
veio o crescer, o novo mundo, a dureza.

                                                                                          
y

Jorge d'Alte

terça-feira, 21 de outubro de 2025

QUANDO O CÉU ESCURECE

 


Quando o céu escurece
e as estrelas se perdem nas galáxias
há sempre um buraco negro que as traga
sugando-as como se fossem pensamentos.
De isto o meu cérebro padece
os sonhos veem carências impias
a dor domina o peito com a sua saga
deixa ali o pesadelo de cruciantes sofrimentos.

Queria ser o sol
iluminar os meus dias
que o tempo fosse caracol
me desse esse calor de invernias.
Deixasse a noite ser lua
que o seu luar me aconchegasse
que a mágoa de ser crua
não deixasse que o meu sonho acabasse.

                                                                                     


Jorge d'Alte

terça-feira, 14 de outubro de 2025

VEJO-A

 


Vejo-a, vejo-a
que linda que é.
Chama-a, chama-a
a voz suplica.
Ama-a, ama-a
Grito do meu coração.
Senti nesse instante
que algo de gigante
tomara a minha voz
insinuara-se na mente
arrepiara-me a pele.
Ela virara-se com um sorriso
eram mil mimos,  o olhar prometia
o meu coração perdido
batia, batia
seus passos leves vinham
a voz cá dentro esperançosa tremia.
Vem, vem.
o embate foi palavra, foi ternura, desejo
e mesmo antes de falar, sua boca foi beijo
Beija beija
afagavam os olhares
os corpos colados dançaram no crepúsculo
e como sol ao fim de tarde
mergulharam, mergulharam
hostis se deram, ternos medraram no amar.

                                                                                    

Jorge d'Alte








segunda-feira, 13 de outubro de 2025

NO SONHO E NO SONO

 



O verão de fogo caíra
a nortada acordara no outono
espalhando por toda a parte folhas de várias tonalidades.
Tudo o que havia de facto ruíra
começara no sonho e no sono
espalhando pelo  sangue folhas de grandes sensibilidades.
Usei uma vassoura para varrer o coração
limpei a tristeza e as lágrimas
as mágoas, as  feridas e as dores para baixo de um tapete.
Arreganhei os dentes num esgar de emoção
senti os olhos a verem, como vindimas
colhendo da vida sentimentos como um beijo que derrete.
                                                                                

O inverno virá lesto e sisudo
O calor dela será o meu aconchego
a boca dela o meu porto de abrigo
o seu corpo a volúpia da paixão.


Jorge d'Alte

terça-feira, 7 de outubro de 2025

PERDA




Isto, é isto
o céu escuro sem nuvens brancas correndo
ainda a tarde se afirmava em meio
Alguém estava sentado num banco junto ao rio
As folhas de outono bailavam pelo chão
como bailava a mente na amargura.
Isso era isso
a perda não era choros
apenas memórias e saudades.



Jorge d'Alte

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

REI E RAINHA



Lembro-me de ser pequeno
e tudo me parecer enorme
de ir para a escola no meio de tantos
de ter sonhos e amizades
de corrermos atrás da bola uma esfalfa 
de corrermos uns atrás dos outros na apanha
os medos levava-os nos olhos
tudo era novidade aos molhos
e o sonho já era dar a mão e beijar
as palavras eram poemas escondidos
e os sorrisos! os sorrisos ficavam na alma
eram gritos! Gritos de quem ama
lembro-me de ser pequeno
de roer as unhas por a ver
eramos Heróis! Eramos gigantes ao adormecer.
Depois da noite vieram madrugadas
belas e geladas de pérolas de orvalho
e no natal eramos mais altos
Trocávamos letras  com corações em cartas
Eramos heróis quando na festa sacávamos
a menina dos nossos olhos, pois os olhos tinham o olhar
e os braços dançavam abraçados no corpo.
Era um novo mar que se abria uma boca de luar que nos sofria.
Lembro-me desses tempos sem solidão
das noites brancas a boca buscando a seiva de amar
Eram gritos! Gritos de quem ama
lembro-me de ser pequeno
de roer as unhas por a ver 
de sermos Heróis
mesmo que por um só dia
dela estar á janela as cortinas a adejar
da ansia do coração
esperando apenas por um simples acenar
ali só na noite desafiante e convencido.                                

Eramos Heróis
mesmo só por uma noite.
a luz a apagar-se de mansinho
o adeus do seu acenar.
o vazio que levávamos para o crepúsculo matutino
Eramos heróis no despontar
Lembro-me de ser pequeno e sentir
a mão rosada no afagar no sonho sonhar
que era rei
que ela era a minha rainha
que eramos apenas heróis na nossa cantiga.


Jorge d'Alte



quarta-feira, 1 de outubro de 2025

CONDENAÇÃO



Colado á parede de branco vivo
olho o buraco dos fuzis que nos querem matar
Digo e direi que amo o mundo
que amo a minha companheira
que quero viver numa terra de paz.
Digo e direi mais
só a ela na escurecida cela
que os nossos beijos são a nossa arma
os filhos da rua a nossa armadura
a pobreza a nossa luta contra um poder cego.
Que sou eu?
as balas choveram dias e dias sobre nós
quem é ela?
a mulher mais linda, a minha força.
Agora querem vergar-me
mas não tremo quando afasto a venda
têm medo que veja os assassinos
que os leve junto ao sonho
ouço o engatilhar das armas
oiço meu nome sem lágrimas.
Sorrio no nome que ama
Maria!


Jorge d'Alte

CANTA-ME UMA CANÇÃO

Canta-me uma canção. Canta-me esta canção de uma moça que desapareceu como truque de ilusionista diz-me; posso ser eu? Olho o meu corpo e só...