terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A CARTA DE NATAL

 




No cimo do morro
olhando o redondo á minha volta
quebrei na lonjura das memórias
e recordei.
Estava na roda das cartas ao Pai Natal
era o mais novinho e seria o primeiro
a fila crescia atrás de mim numa imensidão.
Tinha escrito meia dúzia de sarrabiscos
com cuspe colara a carta pintada de várias cores.
Lembro-me perfeitamente o que queria dizer
de sentir a minha alma alvoraçada na matina;
no cimo da cadeira encostada no marco vermelho
meti a mãozinha na ranhura largando a carta amarrotada.
Nela ia o meu pedido gatafunhado.
Jesus ajudai o pai e faz a mãe sorrir
Dai-nos um pão em cada dia
dai-nos o sol para aquecermos
ajudai os meus amigos.
Aqui os olhos descaíram
com o esgar de uma lágrima
o Tonecas morrera num dia: tivera garrotilho.
Nessa altura até ficara feliz
estava com os anjinhos no céu
corria com o vento escorregava no arco Iris
só não percebera como podia dormir na nuvem sem cair.
Caí em mim na penumbra do dia
Cantei um Natal distraído
chutei uma pedra no caminho
as folhas caíam leves como a neve caía bela em pétalas.


Jorge d'Alte


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