O solitário
vivia na sua casa de mil anos
não falava com ninguém mas não era mudo
era forte e teimoso no uso do seu cachimbo
nunca ninguém o vira chorar, blasfemar ou cantar.
Via-o sempre durante a minha infância
erguido na varanda rodeado de plantas
olhando o profundo do horizonte sem magia.
Recolhido no seu quarto revia a sua vida,
sim tivera-a um dia mas deixara-a algures
caída num tempo que já era.
Desde aí não sonhava
os sonhos eram sombras que por ele passavam
umas vezes trazendo lágrimas
outras um sorriso quando o sonho era luz e ele a via
correndo dele toda atrevida na sua saia rodada de chita.
De novo as sombras dançavam á sua volta
regurgitando momentos, emoções, saudades.
O solitário
desfazia-se então numa raiva oculta na sua garganta
trazendo-o á varanda;
gritava o que ninguém ouvia exalando uma fumarola
Fora assim no meio das névoas passadas que ele morrera sem saber.
Jorge d'Alte

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