Os olhos tinham-se fechado
com o peso das pálpebras ensonadas
levando
consigo a imagem
com que sempre adormeço; o teu rosto.
O tempo era de verãoe a lua mentirosa não viajava no meu céu.
A brisa
trazia-me o cheiro da maresia ali perto
mas também o teu, que me envolvia como
bruma
escondendo-me desse mundo falso, onde todos vivemos.
Meus olhos procuravam preocupados a tua estrela
Meus olhos procuravam preocupados a tua estrela
o teu sol, mas por mais que me
esticasse
mesmo pondo-me em bicos de pés
não a conseguia alcançar.
Aflito corri a praia de lés a lés
Aflito corri a praia de lés a lés
talvez mais ali, eu a pudesse agarrar.
Já
desesperado perguntei à onda vazada
se tinha visto ou escutado nesse mar
a tua
estrela, o teu nome amado
mas rolando de volta virou-me as costas
deixou-me
na areia a espuma da minha raiva.
Virei-me para o norte, escutando a voz desse vento
ouvindo o seu lamento
triste e o seu desespero
que fazia vergar de dor as árvores gigantescas.
Nada tinha para me dar para me dizer
Nada tinha para me dar para me dizer
pois ele era perdição e destruição; castigo
Caí de joelhos nesse chão falso
Caí de joelhos nesse chão falso
que muda constantemente, consoante o vento
consoante o mar, e as areias gemeram
sob o peso do meu pesar.
Quis gritar para quebrar o pesadelo
Quis gritar para quebrar o pesadelo
mas a voz não saiu e em vez dela senti-me
a chorar
mas as lágrimas não corriam
esse rio já secara há muito.
A alma
ofendida, queria dar largas à sua inconformada condição
desenhou, traçou e
sombreou no meu sonho
esses traços belos, que por serem singelos
um dia amei e
por eles fui amado.
Agora era tudo silêncio ao redor
Agora era tudo silêncio ao redor
as sombras já não dançavam suas ilusões
eu
tinha-te mais uma vez no meu sonho
aí nem a morte, nem a vida, podiam
escrever outro guião.
Ai eramos nós os escritores
Ai eramos nós os escritores
eramos nós os narradores
eramos nós os atores.
A cena começou com o cair da ilusão
o erguer da fantasia, da fé e da
esperança.
Dei-lhe a minha mão, puxando-a para mim
Dei-lhe a minha mão, puxando-a para mim
beijei esses dedos finos e elegantes
que um dia
percorreram o meu rosto
me afagaram a pele suada e salgada
me
arrancaram pele ensanguentada
no desespero ávido do cume orgástico.
Rodei-te a cintura com os braços da ternuradançamos colados a nossa canção; "Love Me Tender"
As notas foram solfejadas com frémitos de emoção
As notas foram solfejadas com frémitos de emoção
em cada rodopio, em cada
calafrio
aí chegou langorosamente o beijo
Chegou aos meus lábios túmidos e sedentos.
Oh! doce recordação
Oh! doce recordação
trazendo-me de novo ao sonho
este desejo louco como
cavalo à solta
galopando nos peitos, saltando todas as barreiras
levando-me
do teu leito, até à tua estrela, até ao teu sol
que me abrasava por direito
todo o meu corpo dado.
Vivi contigo nesse Céu que era teu e meu
Vivi contigo nesse Céu que era teu e meu
as nuvens passantes recolheram o
nosso amor
embalaram-no no vento norte
que agora de mansinho sussurrava
ecoando nossas promessas de ali vivermos eternamente.
Um dia haverá mais uma estrela nesse céu
Um dia haverá mais uma estrela nesse céu
terá o meu nome escrito mesmo ao
lado do teu
porque a felicidade não se vive só neste mundo
vive-se também no
poder do sonho
na doçura da fantasia, naquilo em que acreditamos
na fé com
que nos entregamos
na força com que nos unimos
na esperança de um novo
encontro
que estará muito, mas mesmo muito para além
desse negro que tememos,
e a que chamamos morte.
Jorge d'Alte
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