No cimo do monte vivia uma aldeia
no relógio de cuco, o cuco não cantava.
Havia um barbeiro que cortava cabelo
em cima de uma árvore não tinha medo
usava óculos escuros espetados no nariz
tinha lenço ao pescoço e as cuecas do juiz
Tac-tac cortava o barbeiro
as flores nasciam voava o nevoeiro.
Havia um pedreiro que pescava pedras
o rio estava lá em baixo e ele não tinha frio
usava grandes bigodes, limpava nariz ás barbas
tinha uma bíblia ao pé e tomava chá
Pas-pas mexia o pedreiro.
voavam coelhinhos e o dia estava quente.
Havia um padre que tocava o sino
não tinha igreja mas era fininho
usava grandes sorrisos e uma imensa bondade
puxou de uma espada e disse boa tarde
Tlim-tlim tocava o padre
passou um avião e fez corrente de ar
Havia uma velha que falava calada
estava á lareira comendo uma bofetada
usava mini saia e um grande leque preto
falava, falava com um esqueleto
Blá-blá falava a velha
voavam perdigotos na lareira apagada.
Havia um caçador
que caçava borboletas
as orelhas abanaram
e perdeu as lunetas
usava grandes monóculos
e fumava cachimbo
fumou, arrotou
perdeu a fisga
Pum-pum fazia o caçador
choveram vidros
e o dia naufragou.
No cimo da montanha
vivia uma aldeia
o cuco
do relógio de parede
era uma bela sereia.
Jorge d'Alte
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