quinta-feira, 17 de julho de 2025

A LOJA DE SONHOS


Um dia parti á procura de sonhos.
Não que não os tivesse,
mas sempre que neles tocava
desfaziam-se no ar como névoa.
Percorri montanhas, rios, vales, até o mar.
Triste e cansado parei numa aldeia.
Parecia não haver vivalma por ali
sentei-me numa pedra escaldante
levantei os olhos e li aquilo que vi.
Estava escarrapachado "loja dos sonhos".
Bati nessa porta ainda incrédulo
que soubesse os sonhos não se cozinhavam 
como poderiam ser vendidos se os tínhamos que conseguir.
Um chiar arrepiou-me, a porta estava a abrir-se:
Meu Deus, o sonho apareceu-me no seu vão.
Era feito de sorrisos sorridentes
dentes nevados e cabelos loucos ao calha.
Havia porém um olhar com olhos
mas que olhos e já agora lábios vermelhos de paixão.
Seria um sonho de anjo evoluindo no meu céu?
Entrei no seu abraço preso na lama do querer
senti o bater do seu coração, era apertado como o nó:
era um nó que me apertava a garganta
fazendo as palavras escorridas
as pernas bamboleantes e as mãos sedosas.
Soube que era o meu sonho
por isso fechei a porta com os pés
não fosse alguém querer o mesmo sonho.
Seria que era um sonho, ter este sonho?
Debati-me ali;
as dúvidas vieram como nuvens cheias
a angústia moía-me o coração
este estava parvo de todo
tinha uma obsessão; eram os lábios.
Sabia que se os beijasse seriam dele
ou seriam dela se as línguas se trocassem?
Não tive tempo para escutar
a minha alma era dela e estava ali a fermentar.


Jorge d'Alte








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