Desejava que estivesses por aqui
as conversas que tínhamos
quando o sol se afundava langoroso
sobre o que desejávamos
sobre raparigas que nos desossavam a alma
sobre empregos e vícios
sobre o álcool que não bebíamos
sobre as festas de garagem
eram nossos estes bons tempos.
Lembro-me bem das nossas lágrimas
um amigo tinha morrido na guerra
um caixão de madeira, a condecoração
uma bandeira cobrindo-o
o esquecimento de uma pátria.
Também tu partistes num ano futuro
mas qual foi a tua morreres sem mim
sem um adeus um beijo um abraço
sempre agarrado ao fumo que te acabou.
Morreste tão novo num dia sem fim
sem eu te escutar sem pegar na tua mão
sem cantar os poemas que vivera-mos
até os olhos se fecharem.
Cravaste em mim esta dor na surpresa
uma saudade que me perde
quem vem enxugar as lágrimas que choro
dia e noite meu amigo do coração.
A pedra branca protege-te das intempéries
mas o frio come a vida sem calor
Choro sem lágrimas e estas correm-me nas veias
como no dia em que colamos nossos sangues.
Sonho-te, sonho-te! quero que estejas aqui
mas os sons veem acavalados nas imagens
ouço-te chamar pelo meu nome
tento agarrar esse sonho
é mais fácil de te chegar
de brincarmos juntos com os arcos
correndo como o vento corre
atrás dos papagaios de papel
as nossas cores o azul e o amarelo
sempre juntas esvoaçando.
Essa era a nossa profunda amizade
por ti fiz tudo, mesmo quando tudo já não era nada.
Jorge d'Alte
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