sexta-feira, 5 de junho de 2026

O RELÓGIO DE PÉ

 

 


O relógio olhando!
A última badalada certa
cai como guilhotina cortando
a respiração aperta.
Dão-dão-dão!
Puxo o lençol até ás orelhas
Dão-dão-dão!
É tempo dos monstros e das velhas.
O medo escava o meu coração
vejo garras espetadas  nas sombras
pergunto-me que horas serão
a minha voz é tão fina sem palavras.
Mas as horas são poucas com meias horas
encolho-me como novelo sem pontas
penso nas coisas boas, talvez amoras
vejo-me a lutar nos campos, coisas tontas
lutar com o velho boneco de trapos que gira
o vento de repente grita e a lágrima sai 
quero apanhá-lo mas ele não se vira.
Dão!
os cabelos estão de pé e o corpo suado
Dão-dão-dão-dão
a minha mente quer fugir, mas aguardo.
A janela!
deixei a janela aberta e bate.
A janela!
É lá que estão os sons, a sombra que se esbate
Os olhos vão-se fechando relaxados
O corpo rijo acalma 
os sons acordam-me lixados
Sento-me  como mola já sem alma.
Arrepio-me todo aflito
que  vai ser de mim?
Tão teso estava que parecia um palito
A porta range sem fim
de olhos esbugalhados de tanto horror
um rosto se abre chamando por mim
Avó! a mente sorri num feliz torpor.



Jorge d'Alte








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